Viagem Astral

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Este artigo deve-se a um colega cuja opinião é que eu sou um frouxo e deveria estar ensinando aquilo que me é possível ensinar, ao invés de esperar pacientemente um futuro hipotético onde a minha grandeza é “suficiente”.

Resumo aqui o que me é possível explicar sobre a técnica conhecida como viagem astral.

Tive ao longo dos últimos 12 anos um certo convívio com essa técnica. Ela não é, com certeza, a técnica que eu mais desenvolvi ou com a qual eu mais trabalhei nesse tempo. Acredito que o meu nível de habilidade com essa técnica é insuficiente, idéia com base na qual eu me recolhi de certas atividades, atitude que meu colega considera uma frescura.

(Bleh.)

Lidamos então com duas questões em um mix de estilos filosóficos. O que é viagem astral? Como é viagem astral?

Vamos primeiro satisfazer a arrogância do autor e dizer, logo de cara, quão falsas são as caracterizações da técnica na literatura especializada. Posteriormente, explicaremos porque estamos errados sobre essas falsificações.

Alguns discursos tratam viagem astral como uma técnica que causa uma separação entre o eu, que às vezes é um corpo mental ou espiritual, e o corpo, frequentemente o corpo material, e falam sobre atividades como sair do corpo. Isso é falso.

Alguns discursos tratam da viagem astral como uma técnica que causa um deslocamento do eu entre entre universos, dimensões, planos ou às vezes planetas, tratando o atual como o universo material e os outros como universos espirituais. Isso é falso.

Algo nos discursos típicos sobre a viagem astral não é falso? O fator comum verdadeiro é simples: a execução da técnica causa o praticante ver, ouvir, tocar, cheirar, e saborear uma série de coisas incríveis.

Por que incríveis? Por que ele, digamos, vê uma praia mesmo estando dentro de um apartamento, e inclusive ouve a arrebentação.

Vamos primeiro perguntar: como isso é possível? Consideramos a pergunta fácil de responder, e deixaremos a resposta como exercício para o leitor. [1] Diremos apenas que “ver coisas que não estão lá” é uma experiência quase cotidiana para todos os seres humanos, em particular os alucinados.

Ora, devemos então considerar a viagem astral um sintoma de alucinação? Não, porque o que diferencia os doidos dos saudáveis não é “ver coisas que não estão lá” mas a forma como se interage com esse ver e essas coisas.

Existe alguma forma saudável de se “ver coisas que não estão lá”? É claro que existe. No topo da cadeia alimentar cultural estão indivíduos que vêem coisas incríveis que os outros indivíduos não vêem até que os incríveis executam a obra incrível. Nikola Tesla, o lendário engenheiro, nos privou de diversas das suas incríveis invenções porque todos os seus projetos de engenharia existiam apenas no mundo das idéias; ele não necessitava desenhar planta.

Assim, então, as mulheres e os homens através da história discursaram sobre a visão dos anjos, das ninfas, do jardim do paraíso, do inferno, dos monstros, dos deuses, de árvores gigantes plantadas no casco de uma tartaruga e uma série de outras coisas incríveis. Essas mulheres e homens acreditaram variadamente que suas almas saíram do corpo para os tais jardins e infernos, ou que seus corpos espirituais visitaram ou foram visitados pelos anjos ou monstros espirituais. O que é totalmente falso, como dissemos antes.

Ora, é preciso desemaranhar esse absurdo. O que é falso? O relato do homem que viu um anjo é falso? Não. O relato de fato existe. Além disso, não temos razão porque duvidar que o homem viu, de fato, um anjo. Nada disso, porém, nos leva a concluir que este homem saiu do corpo ou mesmo que existe algum outro tipo de corpo com o qual ele viu o anjo.

Isso pode não parecer intuitivo. Sendo certo que anjos, se estão aí para serem vistos, não são normalmente vistos, pode parecer intuitivo que tudo isso se faz coerente entendendo que anjos são espirituais e portanto vistos com olhos espirituais que nós simplesmente não estamos usando. A conclusão não segue da premissa.

Como, então, um indivíduo pode ver anjos ou árvores gigantes em cascos de tartaruga?

Insistiremos na pergunta que já abandonamos: como isso é possível? Sabendo que o resultado da interação sensorial é um fenômeno do corpo humano, consideramos aceitável supor que é possível os fenômenos corporais da interação sensorial se reproduzirem por meios arbitrários; podemos reproduzir o fenômeno “ver a praia” mesmo dentro do apartamento.

Eu tive a visão de um homem e este homem me disse que a verdade sobre o mundo é que ele está no topo de uma árvore gigante plantada no casco de uma tartaruga. Existe razão para desacreditar no homem quanto a ter visto ou não visto, ouvido ou não ouvido o homem? Não existe razão para desacreditar. Conclui-se disso que o mundo está de fato no topo de uma árvore gigante plantada no casco de uma tartaruga? Não.

Assim, portanto, que os homens sejam capazes de ver ninfas não exige nem garante que ninfas existem.

Toda criança sabe o que é, e como se parece, um unicórnio, algo que não existe.

Se o leitor ainda não livrou-se do pensamento “que palhaçada é essa” então não deve estar familiarizado com a imaginação. Acredito estar claro para todos os indivíduos familiarizados com a imaginação que é perfeitamente possível “ver coisas que não estão lá”.

Após a revelação bombástica da existência da imaginação, girar novamente a roda do raciocínio pode ser interessante. Como pode o indivíduo ver o que não está lá? Ora, isso se diz comumente “imaginar”. Ora, imaginar é algo corriqueiro e a experiência comum não se parece com os relatos de jardins do paraíso e encontros com demônios. Qual é a relação? A pergunta me parece inverter responsabilidades; não é preciso perguntar à imaginação qual é sua pertinência, mas indagar aos homens que relatam se afirmam e como podem afirmar que sua experiência não foi imaginativa.

Se não está claro, tornarei claro: a técnica da viagem astral executa-se com a imaginação, no mesmo sentido que a técnica do soco de meia polegada [2] se executa com a mão.

Fazendo girar novamente a roda do raciocínio, porque dizer que a experiência da viagem astral é verdade e não é verdade? Por que enquanto é verdade que imaginou-se uma imagem não é verdade que essa imagem possui o tipo de existência objetiva que se poderia chamar objetividade material — a objetividade que se espera na interpretação de frases como “me passa aí o saleiro por favor”.

Que eu tenha imaginado um anjo e então diga Eu vi um anjo; ora, é verdade que eu vi um anjo, sendo que um anjo ocorreu à minha imaginação, e o fenômeno visual do anjo ocorreu; mas não é verdade que eu tenha visto um anjo com a implicação que anjos existem, que estão em algum lugar, e que se você for lá (?) também os verá. Onde eu vejo um anjo, você vê um deva, e Fulano não vê nada. Não há contradição.

De fato, é interessante entender que toda viagem astral é falsa, afinal, não é verdade que existem todas aquelas coisas. Apesar disso, é inegável que você as tenha visto, e portanto toda viagem astral é verdadeira.

Essa dança das palavras é necessária apenas para causar no leitor uma dissociação entre o fenômeno perceptivo e implicações objetivas. Quando eu digo a você — Olhe aí atrás a minha mesa nova — é razoável para você que espere olhar para trás e ver uma mesa. Quando eu digo a você — Atrás de você estou astralmente vendo um anjo — você pode ou pode não ver um anjo. Talvez não veja nada.

Tendo se acostumado com a distinção é possível economizar toda essa balela e falar mais simplesmente.

Estamos em condição, agora, de criticar nossas falsificações anteriores. Como se pode negar que o homem que vê o jardim do Éden separou o corpo espiritual do corpo material e deslocou o corpo espiritual para a outra dimensão chamada jardim do Éden? Não se pode negar isso, e também não se pode afirmar isso, porque a natureza de termos como “corpo espiritual”, assim como “deus”, não se presta a tais julgamentos. Porém, porque afirmaríamos algo assim? Não temos razão porque descrever esse processo como outro que não um processo da imaginação; não por razões teóricas, não por razões práticas.

Ora, mas se estivéssemos na sala do homem quando ele viu o jardim do Éden, não veríamos este homem separar o corpo espiritual do corpo material, ou deslocar-se de alguma maneira? Não. Veríamos este homem sentado como se estivesse descansando ou dormindo.

Infelizmente, a técnica de viagem astral não é descansar nem dormir. (Apesar que uma excelente execução da técnica causa aquela recarga de energia que decorre de descansar ou dormir.)

A execução da técnica de viagem astral fundamenta-se em um ato específico de concentração.

Especificamente qual? A técnica da yoga chamada dharana caracteriza-se por um esforço da vontade humana por expulsar os pensamentos da mente, impedir que surjam e por fim aniquilar de vez sua possibilidade enquanto se sustenta na mesma mente uma única e imutável idéia. Não estamos falando disso.

É, inclusive, absurdo supor que uma técnica que mostra várias imagens baseia-se em uma técnica que expulsa todas as imagens. Apesar disso, diversas obras na literatura especializada sugerem que assim deve-se proceder. Falso.

A concentração necessária é aquela que permite permanecer-se atento sem dormir e não difere significativamente da concentração necessária para ler ou assistir a uma ópera. [3] Especificamente, a concentração necessária é aquela que permite o indivíduo permanecer de olhos fechados por um longo tempo sem dormir.

O que mais então, além de concentrar-se de uma maneira específica, deve-se fazer para viajar astralmente?

A princípio, nada.

Sente-se, feche os olhos, mantenha-se acordado, e fatalmente diversas percepções acontecerão.

Você pode descobrir que a sua atenção divaga para assuntos de trabalho, problemas de relacionamento, ou um filme irado que você viu na televisão. Bem, assim nada se realiza, quer viagem astral, quer programação de computadores, quer dissertações de mestrado. Notícias às 11.

Algo que há de peculiar na viagem astral, diferentemente da programação de computadores e da redação de dissertações de mestrado, é que, além de concentrar-se e ter paciência, não é preciso fazer mais nada. Percepções acontecerão.

Isso pode parecer incrível porque, assim sendo, viagem astral é fácil demais.

Viagem astral é realmente fácil demais.

A razão porque os indivíduos não fazem viagem astral inicia no banal e progride para problemas sérios. A razão banal porque os indivíduos não fazem viagem astral é a mesma porque eles não lavam a louça, não põe a roupa no cesto e porque deixam o dever de casa para a última hora. A razão séria discutiremos em outra oportunidade.

Apesar disso, há algo mais para se dizer sobre a técnica. Aqui, há controvérsia entre os pares do autor, e realmente ainda não há fundamentos para termos segurança nisso ou naquilo. Portanto, dois discursos.

Primeiro, o discurso de um homem chamado P. O praticante da viagem astral deve não apenas fazer nada mas ativamente recusar a construção de imagens advindas da própria vontade, tendência ou do desejo de si mesmo. O praticante deve evitar ver o que ele deseja ver e deve se esforçar para ver o que há para ser visto.

Então, o discurso de um homem chamado T. O praticante da viagem astral deve construir-se no plano astral, construir a imagem de si mesmo, então construir a imagem do local onde está a imagem de si mesmo. O praticante deve ver, ouvir, tocar, cheirar e saborear o que há para ser visto neste local segundo sua própria coerência e, a partir dali, prosseguir para locais não construídos.

O ponto de contenda entre esses dois homens está na origem dos objetos da percepção astral, se eles são esperados ou inesperados, se são conscientes ou inconscientes, se são internos ou externos, se são mesmice ou inovação. Os pares do autor têm pouca certeza sobre o que está em jogo nessa discussão.

De qualquer modo, estão todos de acordo sobre o seguinte: é característica essencial da viagem astral que a representação do si-mesmo experimente a representação do ao-redor com as percepções do ver, ouvir, tocar, cheirar e saborear. Isso é, a visão astral vê um elefante, a audição astral ouve o elefante, e o nariz astral precisa ser tapado com a mão astral porque elefantes fedem e assim por diante.

Além disso, estão todos de acordo sobre o seguinte: o valor da viagem astral está no confronto do si-mesmo com experiências inusitadas que causem reflexão. Construir na imaginação um símbolo sexual em um quarto de motel e prosseguir para astralmente trepar com isso pode ser muito interessante em algum sentido, mas não é adequado chamar isso de viagem astral. [4]

Esse último ponto é a resposta para a pergunta: porque dar-se ao trabalho? Creia comigo que as experiências típicas da viagem astral tem um inestimável valor, causam descobertas incríveis sobre o si mesmo e integram perfeitamente qualquer processo de cuidado de si. Elaboramos sobre essa crença em outra oportunidade.

Hasta la vista.

[1] mentira, daremos a resposta em breve, porque leitores nunca fazem os exercícios.

[2] veja obra cinematográfica de Bruce Lee e outros.

[3] um excelente exercício, por sinal, porque as óperas são ao mesmo tempo belíssimas e chatas pra caralho.

[4] há quem considere isso desaconselhável, mas o rationale é objeto de controvérsias ainda maiores, e o conselho está registrado aqui apenas e tão somente em respeito aos aconselhantes.

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