A Iluminação e o Poder

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O Sistema da A∴ A∴ é único entre os diversos sistemas de Iluminação ocidentais: poucos são aqueles que delineiam a si mesmos de forma tão clara nos termos de Graus, cada Grau com uma Obra, e cada Obra completada pelo desenvolvimento de atividades específicas, descritas em manuais sucintos, com critérios de examinação bem definidos.

Há, porém, um certo problema na proposição de Ordens como a A∴ A∴, que propõe serem seus Iniciados indivíduos iluminados, sábios e espirituais, tanto mais assim quanto maior for o seu Grau na Ordem.

Parece haver, em particular, uma proposição de que a admissão de um indivíduo em um Grau número N da Ordem indica que este indivíduo é iluminado, sábio e espiritual na quantidade N.

O problema é: em que sentido é garantido que o indivíduo que completou a Obra do Grau N ser mais iluminado, sábio e espiritual que aquele admitido apenas ao Grau (N – 1)?

Podemos nos voltar para os elementos do Sistema em busca da resposta para essa pergunta. Realmente, o Sistema é composto por elementos a serem trabalhados progressivamente, de modo que algo se pode garantir sobre aquele indivíduo admitido ao Grau N com relação àquele admitido ao Grau (N – 1): o primeiro (já) passou nos testes enquanto o segundo (ainda) não passou.

Resta saber se a diferença que claramente existe inclui necessariamente uma diferença de iluminação, sabedoria e espiritualidade equivalente.

Tomemos, por exemplo, o terceiro Grau, chamado Practicus. No “Graduum Montis Abiegni” lemos sobre a tarefa do Practicus: “Instruction and Examination in Construction and Consecration of Talismans”.

Isso implica que o Practicus será testado na construção e consagração de Talismãs, e que o sucesso na construção e consagração de Talismãs caracteriza (parcialmente) a completude da Obra do Practicus.

É preciso pausar sobre isso um momento. Realmente, aqui há um grande dilema para a Fraternidade. Com certeza a construção e consagração de Talismãs é uma Técnica, e a expertise nesta Técnica confere o Poder de construir e consagrar Talismãs. Mas qual é a relação entre isso e adquirir iluminação, sabedoria, espiritualidade?

O Sistema da A∴ A∴, justamente por ser claramente delineado e concretamente descrito, não pode propor outra coisa senão práticas bem delineadas e concretas. Ora, práticas concretas levam à expertise na prática, isto por sua vez a um Poder que corresponde. A prática da construção e consagração de Talismãs conduz ao Poder de construí-los e consagrá-los. A prática da meditação SSS conduz ao Poder de causar os efeitos típicos daquela meditação.

Por acaso o Sistema está sugerindo que a Obra do Practicus está completa com os Poderes indicados? Isso seria sugerir que a Obra do Practicus é adquirir Poderes. Ora, o Sistema é claro sobre a Obra do Practicus: “to obtain control of the vacillations of my own being”. Por acaso o Sistema está indicando que obter o Poder de construir e consagrar Talismãs, e assim por diante, é o mesmo que obter controle sobre as vacilações do meu ser?

Isso é inaceitável. Tanto a intuição quanto a experiência rejeitam essa equivalência, mesmo aceitando alguma relação. Em primeiro lugar, não há razão para crer que uma pessoa sem controle das vacilações do seu ser está impedida de obter o poder de construir e consagrar Talismãs e passar em um teste neste Poder. Em segundo lugar, não há razão para crer que uma pessoa com controle das vacilações do seu ser necessariamente terá o poder de construir e consagrar Talismãs.

Em particular, e isto pode resumir ou declarar o problema, tornando-se nossa Hipótese portanto, nenhum nível de dificuldade no Teste do Poder garante como equivalência de sucesso no Teste a completude na Obra do Grau correspondente.

Devemos admitir a existência de indivíduos que possuem todos os Poderes listados e apesar disso não completaram a Obra indicada. Devemos admiti-la porque a experiência determina que assim seja. Observa-se facilmente com um rápido passeio na rua e atenta observação que a expertise ou maestria em qualquer Técnica, e portanto a posse do Poder correspondente, de modo algum implica a presença de uma iluminação, sabedoria ou espiritualidade em particular.

O número de magos poderosos porém imbecis está sugerido na História ser maior do que zero, assim como é o número de gestores imbecis com MBAs.

Também as escolas tradicionais de Artes Marciais alertam seus membros: cuidado para não aperfeiçoar a Técnica e negligenciar a Arte. Por que isso é perfeitamente possível.

Também nos conta além disso a História que homens os quais foram grandes em um tempo de suas vidas, assim reconhecidos como tal por outros homens também grandes, por fim terminaram tragicamente em um manicômio ou similar.

Estando então convencidos dessa possibilidade, somos levados então a inverter a perguntar: se não há relação necessária entre o desenvolvimento da Técnica em Poder e o desenvolvimento da tolice em Iluminação, então que relação há? Há alguma relação? Não estarão essas coisas ausentes de relação?

Eis a minha resposta para essa pergunta, que reflete justamente o meu Grau e tudo o mais, na presente data.

É certo que a Iluminação se desenvolve como uma Mudança no espaço e no tempo. Eu me lembro de sair daqui para ali e Mudar; eu me lembro de passar um dia para o outro e Mudar. A Iluminação é com certeza um processo de Mudança que ocorre no indivíduo inserido no espaço e no tempo.

É plausível que um indivíduo, pelo mero fato de estar vivo, desenvolva sabedoria e espiritualidade. É, porém, algo raríssimo que isso venha a ocorrer de forma plena; isto é, que um indivíduo aleatoriamente torne-se iluminado, sábio e espiritual de forma plena. Entendo que a “plenitude” é uma condição qualquer suficientemente estável para durar, em contraste com um evento súbito, verdadeiro e passageiro.

Não temos muitos registros históricos de indivíduos que tenham sofrido Iluminação Espontânea. Os grandes heróis da humanidade tem histórias de longos processos, mesmo que desconhecidos. Pensar que o Buda sofreu iluminação instantânea debaixo daquela árvore é ignorar todos os anos de trabalho realizado anteriormente.

O que é concretamente esse processo? Não sabemos. Eis uma grande infelicidade para a humanidade. Não sabemos exatamente quais são são os elementos desse processo. Ele é, em grande parte, um processo de tentativa e erro por parte de todos os envolvidos.

Sabemos algo sobre esse processo. Em particular, sabemos que ele envolve a apreciação de experiências significativas e a integração desta experiência. Sob outro aspecto, sabemos que este é um processo empírico no que ele se desenvolve através de experiências.

Assim, portanto, um Sistema de Iluminismo Científico, qualquer seja a sua forma específica, é de alguma maneira um Sistema de produção de experiências significativas. Através da sucessiva obtenção, apreciação e integração das experiências significativas decorrentes das práticas do Sistema, o indivíduo então Ilumina-se.

O Sistema, como algo concreto e bem definido, constitui-se de elementos concretos e bem definidos, as suas práticas, ou seus Dispositivos. Como entendido anteriormente, a prática leva a expertise na prática, ao Poder correspondente à Técnica. Ora, o grande valor do Sistema está justamente em propor práticas cuja perseguição da expertise levará incidentalmente à obtenção de experiências significativas. Mais do que isso: o grande valor do Sistema está em favorecer a obtenção de mais e mais experiências significativas pela proposição das práticas certas na ordem ótima.

Assim sendo, a solução para compreender o mistério da Admissão ao Grau Seguinte é observar que certamente é preciso o Praticante obter o Poder relativo às Técnicas que pertencem ao Grau Atual; afinal, é justamente o processo que conduz a esse Poder aquilo que produzirá as experiências significativas programadas para o Grau. Porém, o Praticante não deve enganar a si mesmo com relação à Obra do Grau e confundí-la com o coroamento de uma perseguição Técnica, porque ela não basta; é preciso obter, apreciar e integrar as experiências significativas correspondentes.

Assim, portanto, subjacente ao Sistema concreto e evidente, percorre-se um outro Sistema, implícito no primeiro, oculto, cuja prática é difícil de definir porém certamente caracteriza-se de algum modo pela integração de experiências significativas e transformação disso em Iluminação. O Sistema oculto não está oculto porque nós assim o desejamos; infelizmente, ele é mais difícil de ver do que o primeiro.

Considero plausível entender que a Árvore das Técnicas é Qliphot da Árvore das Experiências Significativas.

Deixamos o problema de um membro Sênior da Ordem reconhecer os sinais de integração das experiências significativas por parte do Júnior como exercício para o leitor.

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