Magia descende etimologicamente do latim magus, por sua vez do grego magos, por sua vez do persa antigo magus.
O dicionário Aurélio Online diz:
s.f. Arte tida como capaz de produzir, por meio de certas práticas ocultas, efeitos que contrariam as leis naturais.
O dicionário Merriam-Webster Unabridged diz:
1 a : the use of means (as ceremonies, charms, spells) that are believed to have supernatural power to cause a supernatural being to produce or prevent a particular result (as rain, death, healing) considered not obtainable by natural means and that also include the arts of divination, incantation, sympathetic magic, and thaumaturgy : control of natural forces by the typically direct action of rites, objects, materials, or words considered supernaturally potent.
[1 a : o uso de meios (como cerimônias, encanto, feitiços) que acredita-se terem poderes sobrenaturais para causar um ser sobrenatural a produzir ou prevenir um resultado particular (como chuva, morte, cura) considerados impossíveis de obter por meios naturais e que também incluem as artes da divinação, encantamento, simpatia e taumaturgia: controle das forças naturais pela tipicamente direta ação de ritos, objetos, materiais, ou palavras consideradas sobrenaturalmente potentes.]
Em ambas as definições, magia é um ato deliberadamente realizado por um ser humano com o intuito de causar efeitos que contradizem as leis da natureza i.e. efeitos sobrenaturais.
Entende-se que o persa antigo magus é um termo surgido entre uma casta especial de sacerdotes para significar um membro da (desta) casta. A ocorrência mais antiga desta palavra é o registro em pedra conhecido como Inscrição de Behistun. Nesta inscrição, o significado de magus não é conhecido, mas entende-se que ela tem função de título, i.e. o título de uma pessoa.
Temos o registro do grego antigo magoi significando um membro da casta de sacerdotes dos persas nos escritos de Heródoto. Temos o testemunho de Clemente de Alexandria sobre Heráclito de Éfeso, que teria acusado os magos de impiedade devido a suas práticas ritualísticas e cerimoniais. É plausível, mas não certo, que Heráclito estaria então criticando a prática do zoroastrianismo, a religião praticada no império persa.
Até então, as palavras magus e magos qualificam ou especificam as pessoas de uma certa casta ou que tem certos hábitos e costumes. A prática dos magoi é peculiar no domínio do que é ainda, então, prática religiosa.
Através dos séculos seguintes, produzem-se no grego antigo variações como magikos, magike e mageia. Acreditavam os gregos e os romanos que os sacerdotes persas, descendentes e herdeiros de Zoroastro, possuíam a sabedoria dos Caldeus, eram peritos nas artes da astrologia, alquimia e outras artes tidas hoje como esotéricas — a magike.
Ainda no século 5 antes da era comum, temos o registro dos magoi como adivinhos do futuro. Através dos séculos seguintes, até os primeiros séculos da era comum, a cultura helênica identificou os magikos, os praticantes de magike, como praticantes de artes atualmente tidas como esotéricas: adivinhação do futuro, comando dos espíritos e assim por diante. Referências aos magikos e à magike nesse período são frequentemente pejorativas, e os magikos tidos como charlatães detentores de uma falsa sabedoria. Em contraste, a transformação da figura de Zoroastro histórico naquela do Pseudo-Zoroastro, o fundador da Ordem dos Magoi, o primeiro Magos, herdeiro da Caldéia, levanta a magike como sabedoria sublime e divina.
Acredita-se que as transformações na original magos deram-se inclusive por influência do grego antigo goes significando feiticeiro, mago, i.e. indivíduo praticante de técnicas e artes hoje tidas como esotéricas e goeteia significando feitiçaria, magia, i.e. justamente as práticas e artes hoje tidas como esotéricas. A prática da goeteia não era considerada religião, e entre os gregos clássicos e do período helenista, não era vista com bons olhos. Que os magikos fossem goes e portanto sua magikes fosse goeteia explica a conotação pejorativa dos novos termos.
De um modo ou de outro, a palavra magike já possui a definição da nossa magia ou magic. Além disso, já no tempo dos neoplatonistas e do Pseudo-Zoroastro a palavra magike é usada de forma ambígua, tanto para referenciar a indigna técnica de charlatães quanto a sublime arte de pessoas divinas. Ou, senão a própria palavra, mas então o objeto a que ela se refere. Nos escritos dos neoplatonistas, surge o grego helenista teourgia significando obra divina, em claro contraste com a goeteia, prática certamente não divina, até demoníaca.
No século 4 da era comum, escreveu Juliano, o Apóstata, traduzido por Wilmer Cave Wright:
For instance I have heard many people say that Dionysus was a mortal man because he was born of Semele, and that he became a god through his knowledge of theurgy and the Mysteries, and like our lord Heracles for his royal virtue was translated to Olympus by his father Zeus.
[Por exemplo, eu ouvi muitas pessoas dizerem que Dionísio foi um homem mortal porque era filho de Semele, e que ele tornou-se um deus através do seu conhecimento da teurgia e dos Mistérios, e, assim como nosso senhor Heracles, por sua real virtude, foi transportado para o Olimpo por seu pai Zeus.]
Teourgía é portanto algo que Dionísio possuiu enquanto mortal e o tornou divino.
A atitude ambígua com relação à magia permanece mesmo até a França da Revolução. A distinção entre goeteia e teourgia permanece na distinção entre baixa magia e alta magia, magia branca e magia negra. Assim salva-se a necessidade e a prática de desprezar os adversários e elogiar os aliados.
Apesar da continuidade na significação de magia como uma prática do sobrenatural, seja infernal ou divino, surge na Europa uma diferença, tão cedo quanto o século 15. Lemos no “De Occulta Philosophia”, da edição crítica de Vittoria Perrone Compagni:
Magica facultas, potestatis plurimae compos, altissimis plena mysteriis, profundissimam rerum secretissimarum contemplationem, naturam, potentiam, qualitatem, substantiam et virtutem totiusque naturae cognitionem complectitur et quomodo res inter se differunt et quomodo conveniunt nos instruit, hinc mirabiles effectus suos producens, uniendo virtutes rerum per applicationem earum ad invicem et ad sua passa congruentia, inferiora superiorum dotibus ac virtutibus passim copulans atque maritans: haec perfectissima summaque scientia, haec altior sanctiorque philosophia, haec denique totius nobilissimae philosophiae absoluta consummatio.
Tradução do anterior publicada em 1610:
Magick is a faculty of wonderfull vertue, full of most high mysteries, containing the most profound Contemplation of most secret things, together with the nature, power, quality, substance, and vertues thereof, as also the knowledge of whole nature, and it doth instruct us concerning the differing, and agreement of things amongst themselves, whence it produceth its wonderfull effects, by uniting the vertues of things through the application of them one to the other, and to their inferior sutable subjects, joyning and knitting them together thoroughly by the powers, and vertues of the superior Bodies. This is the most perfect and chief Science, that sacred and sublimer kind of Phylosophy, and lastly the most absolute perfection of all most excellent Philosophy.
[Magia é uma faculdade de maravilhosa virtude, cheia dos mais altos mistérios, contendo a mais profunda contemplação das coisas mais secretas, conjuntamente com sua natureza, poder, qualidade, substância e virtudes, assim como também o conhecimento de toda a natureza, e nos instrui sobre as diferenças e os acordos das coisas entre si, a partir dos quais produzem-se seus maravilhosos efeitos, por unir as virtudes das coisas através da aplicação de uma sobre a outra, e aos seus sujeitos inferiores uni-los e atá-los completamente pelos poderes e virtudes dos corpos superiores. Esta é a mais perfeita e principal ciência, o mais sagrado e sublime tipo de filosofia, e por fim a mais absoluta perfeição da mais excelente filosofia.]
Segundo Agrippa, magia é uma filosofia.
Esta é a definição no “The Lesser Key of Solomon the King”, obra do início do século 18:
Magick is the highest most absolute and divinest knowledget of Natural Philosophy advanced in its works and wonderfull operations by a right understanding of the inward and occult vertue of things, so that true agents being applyed to proper patiens, strange and admirable effects will thereby be produced; whence magicians are profound & diligent searchers into Nature; they because of their skill know how to anticipate an effect which to the vulgar shall seeme a miracle.
[Magia é o mais alto e mais absoluto e divino conhecimento da Filosofia Natural, elevada em suas obras e maravilhosas operações pelo correto entendimento da virtude interna e oculta das coisas, de tal modo que, sendo os verdadeiros agentes aplicados aos apropriados pacientes, estranhos e admiráveis efeitos serão por tal meio produzidos; assim, os magistas são profundos e diligentes investigadores da Natureza; eles por causa da sua habilidade sabem antecipar um efeito que para o vulgo parecerá um milage.]
Apesar de excepcional, a magia não trata do sobrenatural, mas do natural que está ao alcance apenas do magus, e causa espanto somente pela ignorância do espantado.
Lemos também no “Dogme et Rituel de la Haute Magie”, uma obra do século 19:
Il y a une vrai et une fausse science, une magie divine et une magie infernale, c’est-à-dire mensongère et ténébreuse: nous avons à révéler l’une et à dévoiler l’autre; nous avons à distinguer le magicien du sorcier et l’adepte du charlatan.
[Há uma verdadeira e uma falsa ciência, uma magia divina e uma magia infernal, isto é, mentirosa e tenebrosa: nós vamos revelar uma e desvelar a outra; nós vamos distinguir o magista do feiticeiro e o adepto do charlatão.]
O autor não apenas continua a tradição ambígua com relação ao que é magia, mas continua também a tradição que surgiu no Goetia, ou já havia surgido:
La magie est la science traditionnelles des secrets de la nature, quis nous vient des mages.
[A Magia é a ciência tradicional dos segredos da natureza, que nos vém dos magos.]
Magia é não apenas uma filosofia mas uma ciência, um conhecimento sobre a natureza.
O magus é ainda chamado divino (se fosse infernal seria feiticeiro); porém, sua prática não é apartada do mundo, e portanto sobrenatural, mas uma prática do mundo, natural, surpreendente apenas em função da ignorância.
O magus é, então, adepto, isto é, um expert, aquele que tem expertise, que domina uma arte ou uma técnica. Com a popularização dos textos da Hermetic Order of the Golden Dawn, o termo adepto, já usado na Societas Rosicruciana in Anglia, vem a ser usado para significar aquele que não é somente praticante de magia mas o verdadeiro expert nessa disciplina.
Referências:
Mary Boyce, “A History of Zoroastrianism: The Early Period”, editora Brill, 1996; consultado na edição digital em http://books.google.com.br/books?id=S5A18Y6rkjoC
Henry George Liddell, Robert Scott, “A Greek-English Lexicon. revised and augmented throughout by. Sir Henry Stuart Jones. with the assistance of. Roderick McKenzie”, Oxford, Clarendon Press, 1940.; edição digital de: Tufts University, “Perseus Digital Library”, http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:atext:1999.04.0057
Juliano o Apóstata, Wilmer Cave Wright (ed.), “To the cynic Heracleios”, in Juliano o Apóstata, Wilmer Cave Wright (ed.), “The Works of Emperor Julian”, volume II, London Heinemann, 1913; edição de: University of Toronto, Internet Archive, https://archive.org/details/workswithenglish02juliuoft
Joseph H. Peterson (ed.), “The Lesser Key of Solomon”, Weiser Books, 2001
Eliphas Levi (pseud.), Alphonse L. Constant (1810-1875), “Dogme et rituel de la haute magie”, nouvelle édition, tome premier, Paris, 1930; edição digital: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k205564w
Cornelius Agrippa von Nettesheim, John French (trans.), Joseph H. Peterson (ed.), “Of Occult Philosophy or Magic”, 2000, edição digital: http://www.esotericarchives.com/agrippa/agrippa1.htm
Cornelius Agrippa von Nettesheim, Vittoria Perrone Compagni (ed.), “De Occulta Philosophia”, BRILL, 1992, edição digital: http://books.google.com.br/books?id=dCARYHTxmeIC&lpg=PP1&hl=pt-BR&pg=PP1#v=onepage&q&f=false

Deixe um comentário