Traduzindo as máximas thelêmicas

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As duas frases do Livro da Lei mais citadas pelos thelemitas diariamente são “Do what thou wilt shall be the whole of the Law” e “Love is the law, love under will”. Estas foram as frases selecionadas pelo Profeta para os cumprimentos diários: o primeiro chama “Do what thou wilt …” e os outros respondem “Love is the law …”.

Enquanto a segunda frase é fácil e corretamente traduzida para o português “Amor é a lei, amor sob vontade”, são numerosas as traduções da primeira frase. Pretendemos aqui ao menos reduzir esse número através da análise linguística da primeira frase.

Temos à nossa frente uma oração composta, com subordinadas no sujeito.

Oração
Sujeito — Predicado
Do what thou wiltshall be the whole of the Law

O predicado é composto pelo verbo de ligação no núcleo e uma expressão substantiva como objeto.

Predicado
Núcleo — Objeto
shall bethe whole of the Law

O núcleo do objeto é “the whole”. A expressão “of the Law” tem função adjetiva: não estamos tratando de qualquer “whole” mas especificamente do “whole of the Law”.

Predicado
Núcleo — Adjuntos
the wholeof the Law

“the” é o artigo definido. A função de núcleo do objeto indica que “whole” é substantivo, não adjetivo ou advérbio. Apesar de este “whole” possivelmente traduzir-se como “tudo” ou como “todo”, não podemos admitir que “the whole” traduz-se como “o tudo”: a presença do artigo definido afasta a opção de pronome indefinido. Com certeza “the whole” traduz-se como “o todo”. Entendemos que não há controvérsias sobre como traduzir os adjuntos.

… o todo da Lei

É claro que “o todo” possui quase todo o significado de “tudo” e vice-versa. Porém, é preciso respeitar a opção literária do autor modelo, que poderia ter optado pela formulação seguinte mas não optou:

Do what thou wilt shall be all of the Law

Sendo que o autor modelo não optou pelo pronome no núcleo do objeto, nós então rejeitamos o pronome na tradução.

O verbo de ligação no núcleo do predicado está modificado pelo verbo auxiliar “shall” produzindo claramente o tempo futuro. Observamos, além disso, que o verbo “shall” indica também o imperativo; contraste com o verbo “will” que expressa intenção ou potencial. Antes de mais nada, o verbo “be” traduz-se por “ser” ou “estar”. Já que não há controvérsia nesse sentido, ignoramos “estar”. No tempo futuro, acompanhando o sujeito, “shall be” traduz-se por “será”.

Algumas pessoas optam por elaborar a expressão e dizer “há de ser”, onde o núcleo da expressão é o verbo “haver”. Em português, a expressão “há de ser” tem conotação de intenção, predição, desejo ou esperança com relação ao futuro; não tem conotação de ordem ou comando. É portanto inadequado traduzir o sentido particular do verbo auxiliar “shall” dessa maneira. Como o autor modelo optou por uma conotação imperativa, então nós devemos fazer o mesmo. O correto para “shall be” é “será”.

… será o todo da Lei

Existe a opção de introduzir no português um auxiliar da mesma forma que o original e dizer portanto “deverá ser” ao invés de “será”. Consideramos essa uma opção aceitável, que preserva o sentido imperativo do auxiliar “shall”. Porém, consideramos essa opção desnecessária, já que “será” preserva igualmente este sentido. Acreditamos, por fim, que esta é uma variação legítima.

Voltando a oração principal, o sujeito é oração subordinada.

Do what thou wilt shall be the whole of the Law

Esta é uma oração com sujeito oculto, implícito. O núcleo do predicado é “do”.

Predicado
Núcleo — Objeto
Dowhat thou wilt

Observamos que este “what” deve ser entendido como pronome porque o objeto é claramente a oração subordinada “thou wilt”: “thou” é pronome arcaico para a segunda pessoa do singular, e “wilt” é a forma arcaica do verbo “will” na segunda pessoa. O pronome “what” é interrogativo e introduz a subordinada como objeto. “do”, sim, mas não “do” qualquer coisa; “do” especificamente “what”? Ora, “what thou wilt”.

O verbo “will” traduz-se de várias maneiras; não parece haver controvérsia entre os thelemitas sobre a opção neste caso: todos traduzem “will” como “querer”. O verbo “will” na segunda pessoa do singular no presente é “queres” e a expressão completa se traduz como “que tu queres”.

Algumas pessoas trazem o verbo “will” para o português no futuro, e não no presente, como se houvesse concordância entre essa palavra e o núcleo do predicado da oração principal que ocorre logo em seguida, “shall be”. Isto é um erro. A expressão “what thou wilt” é objeto da subordinada “Do what thou wilt”, cujo núcleo é “Do”; a subordinada inteira é sujeito para “shall be”. Portanto, se alguém deve concordar com “shall be”, este alguém é “Do”.

De fato, este “Do” deve concordar com “shall be”. Não parece haver controvérsia entre os thelemitas sobre traduzir este “Do” como “fazer”. O imperativo afirmativo de “fazer” na segunda pessoa é “faz”.

Faz (o) que tu queres …

Em português, é preciso introduzir o artigo definido que, no inglês, é desnecessário. A presença do artigo aqui é uma formalidade.

Optar por “quiseres” é um erro, já que “quiseres” é o futuro do subjuntivo de “querer”. Em primeiro lugar, não estamos tratando do que “thou shall will”, o que indicaria portanto o tempo futuro; mas sim do que “thou wilt”, do que tu queres no tempo presente. Em segundo lugar, não há qualquer subjuntividade aqui; não estamos tratando de quando tu quiseres, mas sim do que tu queres, como indicado pelo pronome “what”.

Nossa tradução para oração principal é portanto:

Faz o que tu queres será o todo da Lei

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