Tendo passado mais de cento e dez anos, esta revelação permanece intrigante aos interessados na espiritualidade ocidental. Sua presença na cultura se manifesta em letras de música, cenas de filmes e até desenhos animados. Periodicamente, descobre-se uma celebridade envolvida com o assunto. Navegando pelos cantos da sociedade, virtual ou real, o pesquisador da espiritualidade ocidental mais cedo ou mais tarde vai encontrar os «thelemitas».
Quem são essas pessoas, na margem da já marginal comunidade esotérica e ocultista? Mergulhando em suas incessantes controvérsias, descobre-se «thelema», sobre o quê não param de falar. O que é «thelema»? Há razões porque as respostas não convergem hoje e não convergirão tão cedo. A definição em abstrato, de verbete de dicionário, talvez convergisse em algo simples; sua inserção nos discursos, porém, materializa o termo em um mundo de cultura, história e experiência pessoal múltiplos e divergentes.
O termo «thelema», que uso se faz desse termo? A pergunta, nesta forma, suscita não olhar para o mundo abstrato das ideias mas sim olhar para o mundo concreto dos acontecimentos. O que falam as pessoas? De que forma elas falam? Sobre o quê elas falam? Pretendo fazer um breve passeio marcando alguns limites nesse espaço.
O primeiro uso do termo, no contexto deste artigo, ocorre no versículo 39 do primeiro capítulo do Liber AL vel Legis — The word of the Law is Θελημα. O termo «Θελημα» é o grego original que se translitera por «thelema». Esta a única ocorrência do termo no livro. Acompanhando isso, em muitos discursos, «thelema» é a «lei» que a «thelemita» cumpre, ou abraça, ou obedece, ou realiza. O sujeito diz: “eu vivo sob a lei de thelema”, “eu aceito a lei de thelema”, “minha vida é regida pela lei de thelema”, “minha vida segue a lei de thelema”. A «lei» refere-se às vezes ao livro inteiro, às vezes a fragmentos. Frequentemente a «lei» refere-se ao final do versículo 40 do primeiro capítulo — Do what thou wilt shall be the whole of the Law. Às vezes a «lei» refere-se a outros, como o controverso fragmento do versículo 21 do primeiro capítulo — this is the law of the strong.
A não «thelemita», a Outra, surge então como aquela que não reconhece, ou rejeita, ou não entende, ou não segue esta «lei». Essa pessoa entende-se como ultrapassada, com relação a revelação ser recente; ou presa, desprovida de liberdade, com relação ao versículo 40 e outros de mesmo teor; ou fraca, desprovida de força, com relação ao versículo 21 e outros de mesmo teor; ou ignorante, não iluminada pela boa nova.
Uma obra literária surge gravitando ao redor da «lei». Estes são textos extraindo dali diversas considerações sobre o ser e o fazer, a verdade do mundo e a regra da vida. Muitas «thelemitas» dirão que «thelema» é uma «filosofia». Ao dizer “eu vivo thelema”, deslocam ligeiramente o discurso: “eu vivo a filosofia de thelema”, “eu sigo a filosofia de thelema”. Acompanhando, então, os escritos do profeta, discursos para além do Liber AL vel Legis se tornarão uma parte integrante de «thelema», como o frequente citado fragmento do Liber II — “Do what thou wilt” does not mean “Do what you like”. A problematização da vontade surge então em diversos discursos sobre a moral e a ética; uns pretenderão “disciplinar-se para fazer a sua vontade e não o seu desejo”, enquanto outros pretenderão “libertar-se da vontade dos outros e realizar a própria vontade”. As crianças devem ser “educadas para não fazer seus desejos e sim sua vontade”, ou então devem ser “libertadas para fazer sua vontade ao invés de fazer a vontade dos outros”. Liberais dirão que “a intervenção do estado na liberdade individual vai contra a filosofia de thelema”, enquanto social-democratas dirão que “a opressão do mercado, ou do capital, na liberdade individual vai contra a filosofia de thelema”.
A não «thelemita», a Outra, surge aqui como aquela pessoa que não compreendeu corretamente, como aquela que não se comporta corretamente, conforme esta filosofia; não importa se declaradamente «thelemita» ou não. À outra é rejeitada o status de «thelemita» por “fazer o seu desejo” e não “fazer a sua vontade”; ou então por “não conhecer sua vontade”. Em contrapartida, pessoas que não se declaram «thelemita» são celebradas como “verdadeiros thelemitas” por viver de uma tal maneira, ou por terem feito algo notável, tal que se diga então “essa pessoa, ela sim, faz a sua vontade”. Insinuar que uma pessoa “não está fazendo sua vontade” é uma forma de reprovar seu comportamento.
O aspecto de Livro Santo produz um viés diferente com o seu discurso próprio. Aleister Crowley, aqui, não é autor, é profeta. O autor chama-se Aiwass, uma existência que fala em nome de outras, como expresso no versículo 7 do primeiro capítulo — Behold! it is revealed by Aiwass the minister of Hoor-paar-kraat. Aqui, «thelema» expande-se para incluir os dizeres de todo um corpo de Livros Santos coligados, dos quais o Liber AL vel Legis é o chefe. Assim, o texto é revelação; está posto não para ser discutido, mas para ser decifrado. Então, surgem discursos sobre a “chave da lei”, que abre o cofre dos tesouros interpretativos. Como revelação, alguns dos discursos já apresentados, como “eu vivo thelema”, se deslocam para outro espaço, da «religião»; “viver” sento um sentimento, em contraste com um raciocínio. Assim, a «thelemita» “dedica sua vida a thelema”, “consagra sua vida a thelema”; ela se casa numa “cerimônia thelêmica” e participa da “missa gnóstica”. Ela cumprimenta as pessoas com sinais especiais como “93” cujo sentido está oculto pela relação esotérica entre os números e as palavras. Ela diz “faze o que tu queres” antes de comer. Outros discursos também se deslocam para o espaço da religião, como a problemática da vontade e do desejo. A pessoa dirá que “thelemitas buscam realizar sua verdadeira vontade”, onde a «verdadeira vontade» jamais será dada pela reflexão racional e só pode ser recebida como uma graça supra racional. Aqueles que assim vivem estão “vivendo no novo æon”, no “reinado ou governo de Horus”, aquele que está “sentado no trono do Leste”; ou então estão lutando uma guerra santa para “inaugurar ou instalar o reinado de Horus ou de thelema no mundo”. Pessoas responderão «thelema» em formulários que solicitam informar sua «religião»; algumas farão gestos de repúdio ao passar na frente de igrejas.
A não «thelemita», a Outra, se posiciona então fora do contexto litúrgico de «thelema», ou fora de qualquer relação com a «verdadeira vontade»; aquela que “não dedica sua vida a thelema” ou “não busca a verdadeira vontade”. Quem “faz o que bem quer” é o “irmão negro”. Mais do que nos outros contextos, aqui o «cristão» surge como o emblema do não «thelemita», assim como toda pessoa religiosa que “ajoelha no altar” e “abaixa a cabeça”, em particular para o “deus morto”. Essas pessoas estão “vivendo no velho æon”.
Enquanto revelação, o Liber AL vel Legis é peculiar na história dos Livros Santos. Os «thelemitas» entendem que sua produção foi consequência de uma ação direta do profeta. Entende-se que, mesmo tendo sido convocado a agir, a revelação deu-se como resultado de uma obra de magia realizada pelo profeta: a Invocação de Hórus realizada no Cairo em 1904. De fato, o profeta era um Adepto da ordem RR et AC, cujos membros recebiam a tradição ocidental de magia cerimonial e a praticavam habitualmente. De acordo com esta tradição, a ordem RR et AC era governada por “mestres secretos” compondo uma “ordem secreta”, com a qual os líderes da RR et AC estavam em contato. O texto surge como “mensagem dos mestres secretos” para “renovar a tradição”. Fragmentos do texto são interpretados como instruções diretas nesse sentido, como este fragmento do versículo 49 do primeiro capítulo — Abrogate are all rituals, all ordeals, all words and signs. Surge todo um contexto onde «thelemita» é a “praticante da magia thelêmica”, a “magia do novo æon”. No espaço da religião, se posiciona o profeta; no espaço da magia, se posiciona o “mestre do templo” e o “magus”, o instrutor e o líder da comunidade mágica. Obras técnicas como o Liber ABA são consideradas “textos de thelema” na medida em que foram escritas pelo “magus do novo æon”, e serão recomendadas para os novatos que se aproximam para fazer a pergunta inicial deste artigo: o que é «thelema»? Pessoas dirão que “thelema é um tipo de magia”, e perguntarão de uma determinada ordem, fraternidade ou escola de magos é “uma ordem (etc.) thelêmica”. Espera-se que um «thelemita» pratique magia no seu dia a dia como outras pessoas fazem aeróbica.
A não «thelemita», a Outra, é a praticante da “magia do velho æon”, ou a praticante de métodos contemporâneos que “não aceitam a lei de thelema”, como a “magia do caos”. Em particular, a «thelemita» se distingue da praticante dos métodos da “antiga ordem”, entendidos explicita ou implicitamente como pessoas que insistem em usar a “magia do velho æon”. Mesmo aceitando que uma «thelemita» não pratique magia, essa aceitação é condescendente e inclui gotinhas de desprezo.
Concluímos reafirmando que o significado da palavra «thelema» não converge hoje e não convergirá tão cedo devido ao surgimento natural de todos esses discursos. Os diferentes contextos e interesses suscitam formações que não se superpõe totalmente e não parece possível selecionar um deles como predominante sobre os demais. De qualquer modo, essa seleção não se dará somente pela ação da reflexão filosófica, já que ela trata de cultura e comportamento; a história dirá o que os «thelemitas» vão por fim fazer ou não fazer.

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