Geografia dos Graus

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a virtude superior não atua — não ficando por atuar
a virtude inferior não atua — ficando por atuar
o amor humano superior atua — não por ter de atuar
a justiça superior atua — por ter de atuar
o rito superior atua — ninguém corresponde

aí arregaça as mangas indo às vias de fato

portanto
perdido o curso — eis a virtude
perdida a virtude — eis o amor humano
perdido o amor humano — eis a justiça
perdida a justiça — eis o rito

Lao Zi, Mario Sproviero (trad.), “Da De Jing”, cap. 38

De acordo com o documento “One Star in Sight”:

The order consists of eleven grades or degrees, and is numbered as follows: these compose three groups, the Orders of the S. S., of the R. C., and of the G. D. respectively.

De acordo com o Oxford Living Dictionary, «grade» significa “um nível particular de posto, qualidade, proficiência ou valor”. A palavra deriva do latim «gradus», significando originalmente a unidade de medida de ângulos, posteriormente uma “etapa”.

O uso de «grau» na descrição de estruturas e sistemas como o da Santa Ordem possui antecedente e tradição. A Hermetic Order of the Golden Dawn se explica em “graus”. A Societas Rosicruciana in Anglia se explica em “graus”. A Gold- und Rozenkreutzer se explicava em “graus”. Isso provavelmente segue do “Die warhaffte und vollkommene …” de Sincerus Renatus, publicado na primeira década do século 18, para além nas brumas do tempo.

Essas estruturas compartilham mais características. Elas representam uma hierarquia vertical: do grau inferior ao grau superior. Elas representam uma série horizontal: do primeiro grau ao último grau. A semelhança com estruturas eclesiásticas e monásticas cristãs não deve surpreender: o movimento Rosa-Cruz preserva explicitamente o cristianismo. Parte da tradição esotérica ocidental foi desenvolvida e transmitida dentro de monastérios.

Em vigor, no estado da arte do conhecimento sobre o cosmos, permanecia a teoria ptolomaica com as esferas planetárias separando, de grau em grau, o imperfeito mundo elemental e o perfeito primum mobile. A iniciada pós-Darwin almeja “evoluir”, a iniciada pré-Copérnico almejava “ascender”.

Em uma perspectiva pedagógica, o arranjo horizontal possui sentido. A Ordem promete “revelação” progressiva. Estruturar esse progresso em etapas permite checagem e acompanhamento. Existe o adequado para a novata e o adequado para a experiente; dá bons frutos envolver o sênior no processo dos juniores.

O arranjo vertical preserva-se na mensuração do valor entregue; a mais experiente avançou mais e recebeu mais; espera-se dela “superioridade” sobre a novata. Espera-se superioridade na medida do valor: iluminação superior, sabedoria superior, poder superior, conhecimento superior, equilíbrio superior etc.

Assim, ela que é membro da Ordem dirá coisas como: “Fulana é do grau X”, ou “Siclana tem um grau maior que Fulana”, ou “Beltrana é minha inferior”.

A realidade de todas estas expectativas, observadas no desenrolar do tempo e do espaço, se revela muito mais bizarra do que diagramas no papel. Este ordenamento, esta relação de “menor que” transposta do grau para o sujeito, se revela uma poderosa armadilha para os distraídos ou uma poderosa arma para os fraudadores.

Este artigo propõe que a estrutura tradicional de graus possui dois problemas fundamentais e propõe uma solução geral para mitigar os dois problemas.

Os dois problemas fundamentais são a redução do gradual ao discreto na dimensão do sujeito e na dimensão do mundo.

Se eu mostrar dois objetos e disser, “olha, eu tenho aqui dois smartphones do fabricante X marca Y”, quando você finalmente olhar, acredito que esperará ver dois objetos iguais. Espera-se que o fabricante X denomine marca Y objetos idênticos fabricados em série pelo princípio das partes intercambiáveis.

Se eu mostrar duas pessoas e disser, “olha, eu tenho aqui dois Zelatores da Santa Ordem”, o que você espera encontrar? Tenho certeza que não esperará encontrar duas pessoas iguais. Mesmo que escolhamos um só valor — iluminação, sabedoria, poder — ainda assim não esperamos encontrar duas pessoas iguais. Nem mesmo saberíamos dizer como duas sabedorias, dois poderes, duas iluminações, podem ser iguais.

Se eu mostrar dois Zelatores sob instrução da mesma soror Fulana, sua amiga, você pode refletir sobre soror Fulana, que você conhece, e traduzir essa reflexão em expectativa — soror Fulana pensa assim portanto eu espero isso mesmo desses dois Zelatores. O que acontece se eu mostrar dois Zelatores sob instrução de um mesmo frater Incognito que você não conhece? Qual é o significado de um Zelator para frater Incognito? Que expectativas você pode formar dessa relação? Trata-se mais do que uma questão apenas de alinhamento entre dois estranhos; a pressuposição ingênua do título para a realidade gera as maiores oportunidades para fraude.

Se eu conheci você ano passado e te reconheci como Zelator; um ano depois, quando nos reencontramos, o que eu devo assumir sobre você? Vamos supor que eu perguntei: como vai o trabalho da Santa Ordem? Você responde: ainda sou Zelator. O que significa isso? Que você permanece igual?

O recorte do mundo em sujeitos com grau sugere que estes sujeitos variam entre si em variantes enumeráveis em uma dúzia. Um conjunto de características altamente codificadas está designado para cada variante, e umas tantas expectativas são geradas a partir daí sobre o que é e o que não é cada pessoa. Porém, a experiência mostra que a variação entre indivíduos tem quantidade muito maior que o número de graus da Santa Ordem.

O sujeito, pego nessa armadilha, enxergará a si mesmo pelo recorte do mundo em graus. Eu sou um Neófito, ela é uma Neófita. Porém, eu estou triste, ela está alegre. O que está acontecendo aqui? As pessoas respeitam muito ela, e me respeitam pouco. O que está acontecendo aqui? Nosso instrutor concorda sempre com ela, e raramente concorda comigo. O que está acontecendo aqui?

Ou então, finalmente, meu instrutor me passou de grau! Finalmente, tudo vai mudar! Antes, eu era Probacionista, e sofria muito; agora, o sofrimento acabou, porque agora eu sou Neófita! … Isso tudo aconteceu ontem, eu acabei de acordar, e a vida segue normalmente. Como assim? Eu não mudei?

Quinze anos atrás, eu e outro irmão fomos interpelados pela esposa de frater Complicado. Naquela época, corria no folclore que todas as pessoas do nosso grau não passavam por dificuldade financeira. A esposa questionou: Vocês dizem isso porém frater Complicado está sempre mal de grana. Não pudemos dizer nada. Onde está a contradição? No grau de frater Complicado, ou no folclore do “todas as pessoas”? Está história é verídica.

O respeito e admiração por pessoas reconhecidas no alto grau levam frater Fulano a sonhar com o respeito e a admiração e o alto grau que premia com tudo isso. O respeito e admiração que soror Fulana tem por soror Sicrana, notável membro do mesmo grau, causam soror Fulana acreditar que não merece o grau que tem.

O sujeito, recortando o mundo em graus, se vê emparelhado, em relação de igualdade, com outros do mesmo grau e desemparelhado, em relação de desigualdade, com outros de outro grau. O mundo, traduzindo declarações ideais, de cartas de intenção, para sujeitos reais do mundo, gera em Fulano expectativas sobre Sicrano e sobre si mesmo baseadas em graus: o outro deve ser maravilhoso porque dizem que ele tem grau tal; minha vida será maravilhosa no grau tal porque assim diz a carta de intenções. O trabalho de transformação pessoal se reduz ao trabalho de passar de grau.

Ninguém tem culpa por nada disso; estas são as armadilhas geradas naturalmente por aquela estrutura. Na medida em que o processo gradual se recorta em graus discretos, enumeráveis, o objeto grau toma o espaço do processo gradual. Os sujeitos, perdendo a visão do processo gradual, passam a enxergar o sequenciamento de graus. Tomando o representante pelo representado, o sujeito transforma a sequência de recortes em uma lista de itens. O amor pelo processo se transforma em amor de realizações. A descrição literária das realizações toma o espaço da irracionalidade da experiência, e a Grande Obra se reduz por fim a platinar a Santa Ordem como se fosse um jogo no Steam.

Tudo isso, mais uma vez, não tem culpado; são efeitos naturalmente gerados a partir das causas. Atribuímos a causa primária, como já dissemos, a redução do gradual ao discreto tanto na dimensão do sujeito quanto na dimensão do mundo. Nossa solução será portanto desfazer essa redução, ou introduzir mecanismos para diminuir o seu impacto.

Segundo nossa análise, graus tem a serventia de recortar um processo gradual permitindo checagens e acompanhamento. Não há razão porque abandonar este mecanismo: o trabalho do novato difere do trabalho do experiente.

Podemos, apesar disso, ressignificar o recorte entre esses trabalhos. No passado, entendia-se que o membro do grau X ascendeu à esfera X, alcançou um nível de aperfeiçoamento X; em suma, que ele se tornou uma pessoa X.

Nós afirmamos não apenas a deficiência mas também o absurdo desse entendimento. Não existe um ser concreto chamado “Neófito”, assim como não existe um ser concreto chamado “Diretor”. Ambas são funções e papéis a serem exercidos. A solução está implícita no modelo original: Neófito refere-se à experiência de uma certa esfera no esquema das esferas. O Neófito está explorando aquela esfera.

O grau, de recorte no processo gradual, se torna, não um recorte no universo dos seres, mas, um recorte no espaço da experiência. O grau se torna não uma população de seres mas uma região do espaço. A diferença entre cada grau se torna uma fronteira entre regiões contíguas. Não existe um ser Neófito mas um fazer Neófito que se caracteriza por explorar o Domínio dos Neófitos.

O sujeito não passa de grau; seu instrutor faz o convite e a recomendação para iniciar uma aventura no Domínio dos Neófitos, ou no Domínio dos Zelatores. A exploração de cada Domínio será diferente de acordo com a característica peculiar de cada Domínio. A Santa Ordem propõe um programa onde a exploração de todos os Domínio começa por aqui e termina por ali. Outras ordens propõe programas de exploração em sequências diferentes. A ambição de exploração completa será atendida no final.

Que uma pessoa esteja pronta a explorar um Domínio não necessita uma decisão sobre quem essa pessoa é ou deixa de ser. O decisor precisa apenas avaliar as condições para uma exploração frutífera. Não faz sentido comparar uma pessoa no início dessa exploração com uma pessoa no final dessa exploração, já que obviamente são pessoas em situação diferente.

Não faz sentido convidar uma pessoa para explorar um Domínio quando ela não está em condições; a exploração será apenas muito dolorosa ou muito incompreensível ou simplesmente vazia de valor. Muitas pessoas caso levadas ao Teatro para uma longa sinfonia apenas cairiam no sono devido ao tédio. Nesse caso, porque não ficar em casa? Nesse caso, vale a pena infligir aos outros o barulho dos roncos?

Se um grau é um espaço geográfico a ser explorado, nós podemos descrever as suas fronteiras sem medo de falhar por excesso de simplicidade; fronteira é fronteira, território é território. Duas pessoas explorando o mesmo Domínio não se confundirão; estamos partilhando de uma experiência próxima, não igual.

Mesmo outros problemas, transversais aos que foram discutidos, tem fácil solução pela linguagem geográfica: pessoas me chamam (é um cenário) de Philosophus hoje, porém, está claro para mim que eu posso perfeitamente fazer uma breve excursão ao Domínio dos Practicus para refrescar a memória, ou me fortalecer, ou mesmo me deliciar só um pouco mais.

Eu estou usando hoje o conceito dos graus como domínios e o progresso como exploração para resgatar para mim mesmo a imagem do trabalho como aventura. Entender a mim mesmo como viajando por um país, fazendo o melhor esforço para seguir o mapa, me relaxa diante dos erros e das dificuldades, bem como me anima a entender as peculiaridades da minha travessia. Acho agradável acenar para os outros viajantes que passam por perto, e acho interessante conversar com as pessoas que estão próximas da fronteira, olhando curiosas para cá. Acho excitante ouvir as notícias das pessoas que passaram deste país para o próximo, mas não sinto ansiedade em chegar lá, visto que ainda há muito o que ver por aqui.

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