“Who calls us Thelemites will do no wrong, if he look but close into the word. For there are therein Three Grades, the Hermit, and the Lover, and the man of Earth. Do what thou wilt shall be the whole of the Law.”
A terceira oração tem uma estrutura aparentemente simples, sem longas coordenações, mas que apresenta suas dificuldades.
{1} «Do what thou wilt shall be the whole of the Law»
Identificamos em {1} facilmente um elemento verbal na posição central, «shall be», separando as frases «Do what thou wilt» e «the whole of the Law». Pelas posições relativas, identificamos facilmente sujeito e predicado.
O predicado exibe uma forma simples: um núcleo verbal e uma frase nominal à direita. Já o sujeito exibe uma forma mais complexa.
{1.1} «Do what thou wilt»
Analisando {1.1}, encontramos à esquerda um verbo, «do», e à direita uma frase introduzida por advérbio, «what thou wilt». Não há sinal de sujeito.
Antes de decifrar este «do» analisaremos a função de «what thou wilt».
{1.1.1} «what thou wilt»
Analisando {1.1.1}, encontramos à esquerda um advérbio, «what», e à direita uma frase, «thou wilt».
Nesta frase, «thou wilt», a palavra «wilt» oferece alguma dificuldade. Existem três ocorrências diferentes para «wilt» no dicionário, dois substantivos e um verbo.
Suponhamos que «wilt» tenha função nominal: neste caso a construção «thou wilt» não faz sentido. Para «wilt» substantivo, o pronome não seria pessoal reto, seria possessivo: «thy wilt» ou «thine wilt». Portanto, com certeza trata-se de função verbal.
Suponhamos que trata-se do verbo «wilt»: neste caso, a flexão não faz sentido. Para a segunda pessoa do singular, a flexão seria «wilts». Apesar de não haver outro verbo «wilt», parece a princípio que não se trata deste verbo.
Ora, o verbo «will» possui uma forma arcaica «wilt» para a segunda pessoa singular do presente do indicativo, conforme o pronome «thou».
Concluímos que «thou wilt» está construído com o verbo «will» na segunda pessoa singular do indicativo presente, e a frase «what thou wilt» tem função de complemento adverbial.
Isso significa, em particular, que {1.1} não tem objeto.
O verbo «do» é um dos verbos de mais ampla aplicação na língua inglesa, contando com 33 acepções entre uso corrente e obsoleto. Para selecionar um conjunto reduzido de acepções, contaremos com a contribuição do contexto e da estrutura.
Observamos, primeiramente, que ocorre sozinho, de modo que sua função é principal, não auxiliar. Desse modo, selecionamos as 28 acepçõs do grupo I, principais, e descartamos as acepções do grupo II, auxiliares.
Em seguida, observamos que ocorre sem objeto. Desse modo, selecionamos as 7 acepções sem objeto, descartando as acepções com objeto.
As acepções restantes são: (1 b), (8), (10 b), (12), (13), (15 a), (19).
Descartamos as acepções (10 b), (12 b), (13 a) e (13 b) que exigem uma construção específica, diferente da encontrada. Por exemplo, (10 b) exige construção com «have».
Em seguida, refletimos sobre as particularidades de cada acepção. A acepção (1 b) ocorre principalmente no modo reflexivo, diferente daqui. A acepção (8 a) ocorre frequentemente com complemento adverbial, como aqui. A acepção (12 a) ocorre frequentemente com o tempo progressivo, diferente daqui. A acepção (19) ocorre pricipalmente com usos transitivos, diferente daqui.
Em seguida, refletimos sobre o contexto. O complemento «what thou wilt», e o predicado «shall be the whole of the Law», são as únicas peças no contexto imediato; no contexto prévio temos os “Three Grades”. Desse modo, descartamos as acepções que demandam contexto específico não encontrado: descartamos (8 b) pela ausência de “emergência”, descartamos (12 a) pela ausência do contraste com “ociosidade”, e descartamos (19) pela ausência do tema sexual. Além disso, na ausência de sujeito, descartamos a acepção (1 b) pelo ausência do sujeito do ato reflexivo.
Concluímos que a acepção correta para «do» em {1.1} é (8 a): “To act or behave in some specified way; to perform some activity. Frequently with adverbial complement.”
Selecionar modo, tempo, pessoa e número é igualmente desafiador. Em primeiro lugar, observamos que a forma «do» permite o infinitivo, o indicativo presente, o subjuntivo presente e o imperativo.
Descartamos o infinitivo e o subjuntivo pela ausência de elementos necessários na construção. Por exemplo, para o infinitivo, está ausente a partícula «to».
Em seguida, refletimos sobre o contexto. A oração principal define “the whole of the Law” por cópula. Uma lei declara como deve ser. Uma lei natural declara que um acontecimento se desenvolverá assim ou assado. Uma lei social declara que os cidadãos se comportarão assim ou assado. É da natureza das leis, o modo imperativo. Por outro lado, uma lei não declara o fato histórico. Uma lei natural ou social não declara que acontece assim ou assado no tempo histórico. Se eu faço ou não faço, isso não encontra-se na lei. Não é da natureza das leis, o modo indicativo.
Concluímos que o modo é imperativo. No imperativo, a forma «do» refere-se ao singular. Pela força do complemento “what thou wilt”, concluímos que trata-se da segunda pessoa.
Satisfeitos com o sujeito, prosseguimos para o predicado.
{1.2} «shall be the whole of the Law»
Encontramos no predicado elementos facilmente identificáveis: um núcleo de predicado à esquerda, «shall be», e um objeto à direita, «the whole of the Law».
{1.2.1} «the whole of the Law»
Sobre a frase da direita, observamos apenas o seguinte: seu núcleo é «the whole», com complemento «of the Law».
Compare com esta outra frase, «the whole Law». Nesta frase, o núcleo é «the Law», com complemento «whole».
Sobre o núcleo do predicado, temos algo a dizer.
Em primeiro lugar, «be» entre duas frases nominais sugere a cópula. Vamos supor que não se trata de cópula. As acepções de «be» agrupam-se em cinco grupos, sendo o III reunindo as acepções com função de cópula.
O grupo I reúne as acepções do “ser” existencial. Tais acepções não aceitam objeto. O grupo II reúne as acepções usadas com complemento adverbial, não encontrada aqui. O grupo IV reúne as acepções usadas como auxiliar, cuja construção não se encontra aqui. O grupo V reúne as acepções usadas para introduzir “relato verbal”, cuja construção não se encontra aqui.
Concluímos que esta aplicação tem acepção no grupo III: acepções de 9 a 15.
Descartamos as acepções não suportadas pelo contexto. Descartamos a acepção 15 por ausência do elemento temporal. Descartamos a acepção 14 por ausência do elemento monetário. Descartamos a acepção 13 por ausência do elemento numérico. Descartamos a acepção 12 por ausência de uma pessoa particular e pela ausência das formas interrogativa ou negativa. Descartamos a acepção 10 porque o objeto não é um substantivo.
Entre as acepções 9 e 11, descartamos a acepção 9 e selecionamos 11: para a acepção 9, não encontramos a relação de “membership of a class of things”, enquanto que para a acepção 11, encontramos a relação de “signify”, “amount to” e “mean”.
Em segundo lugar, «shall» anexo a «be» sugere a função auxiliar. Vamos supor que não se trata da função auxiliar. As acepções de «shall» agrupam-se em três grupos, sendo o II aquele que contém a acepção de auxiliar.
O grupo I inclui uma única acepção, obsoleta, tratando de dívida monetária ou dívida de fealdade, elementos semânticos não encontrados aqui. O grupo II inclui acepções seguidas de infinitivo sem a partícula «to», conforma a aplicação aqui. O grupo III inclui acepções com uso elíptico ou quase elíptico, característica não encontrada aqui.
O grupo III possui três subgrupos. Destes três, apenas o primeiro inclui acepções para a forma presente «shall», com as acepções de 2 a 11. Desses, as acepções 2, 3 e 4 caíram em desuso no século 17.
Descartamos as acepções não suportadas pelo contexto. A acepção 7 trata de usos interrogativos, diferentemente do caso aqui. A acepção 9 trata da denotação de eventos que ocasionalmente ocorrem ou ocorrem sob condições, diferentemente do caso aqui. A acepção 10 trata de uso em cláusulas condicionais, relativas ou temporais, diferentemente do caso aqui. A acepção 11 trata do resultado de uma ação tomada, elemento semântico não encontrado aqui.
Entre as acepções 5, 6 e 8, encontramos um conflito entre 5 de um lado, e 6 ou 8 de outro lado. Entre 6 e 8 não encontramos necessidade de realizar uma seleção refinada. Ambas são representadas textualmente pelo indicativo futuro: na acepção 8 diretamente, e na acepção 6 denotando certeza, confiança ou determinação. Já 5 se representa textualmente pelo modo imperativo.
Deixamos a seleção de «shall be» imperativo ou indicativo futuro aberta para o leitor.
Referências
Oxford English Dictionary, terceira edição, URL:http://ww.oed.com
—, “Liber AL vel Legis”, URL:http://lib.oto-usa.org/libri/liber0220.html

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