Este artigo nasce de uma experiência inusitada: participar da formação do junior de outra pessoa. Por várias razões diferentes, os membros da minha geração na nossa linhagem se conhecem pessoalmente. Às vezes, nos permitimos conversar sobre a Santa Ordem e os nossos problemas, principalmente nossas dificuldades em auxiliar a formação de um junior.
Recentemente, em uma dessas conversas, um irmão, Sênior, me convidou a comentar uma situação difícil com Junior. Como tenho uma opinião sobre tudo nessa vida, prontamente respondi. Fui então convidado a pôr minha opinião em prática, participando da formação de Junior, causando uma breve interferência, como se fosse.
Me reuni com Junior. Ouvi a situação da sua perspectiva. Junior havia se desconectado do próprio trabalho de uma maneira tal que não sabia o que fazer. Superficialmente, o caso parecia ser consequência de um prolongado hiato no trabalho. Profundamente, haviam outras cartas na mesa, que não seria legítimo comentar. De qualquer modo, convergimos para o fato de haver, no mínimo, a Tarefa do Grau para dar instrução. Porém, mesmo com a Tarefa do Grau à mão, o sentimento de estar perdido não se afastou. Este foi o sinal definitivo que me entregou confiança com relação à minha opinião.
Historicamente, o pensador ocidental está fascinado com o Ser desde Platão, se não antes. Capturá-lo, cercá-lo, enquadrá-lo e defini-lo. Poder dizer com segurança “Isso é Aquilo”; em particular, poder dizer “Eu sou Tal”.
O membro da A⸫ A⸫ diz: “Eu sou Neófito”. Por quê? Por que houve um tempo em que ele dizia “Eu sou Probacionista” então seu Sênior disse “Você passou de grau”. A pessoa percebe que deixou de ser Probacionista e passou a ser Neófito.
Esta linguagem é terrível. Ela é a linguagem da promoção hierárquica: ela é a linguagem de uma nova patente na corporação militar, um novo cargo na corporação civil. Ela é a linguagem do Ser: ela identifica o sujeito com o grau. Eu sou Neófito: eu faço coisas de Neófito: coisas de Probacionista estão no passado: Probacionistas são meus juniores, de quem eu cuido, como uma criança, e às vezes sinto pena, porque está sofrendo, coitado. Em particular, ao dizer “eu já passei por isso”, entende-se “isso é passado para mim”; um tempo que se foi e não vai mais voltar.
É minha opinião que esse pensamento é um grave erro. Ao se recortar com frases como “Eu sou um Neófito”, o sujeito não apenas se arroga uma patente, como se o estado espiritual fosse análogo à patente militar, mas faz pior, ele se recorta fora de todo o resto: ele se recorta fora de Probacionista.
A⸫ A⸫ não é uma corporação. “Neófito” e “Probacionista” não são cargos nem patentes. O Sistema da A⸫ A⸫ dá acesso ao iluminismo científico gradual e progressivamente, etapa por etapa. A realização súbita do objetivo do sistema não é nem proibida, nem secreta: ela é improvável. O trabalho é gradual e progressivo para que seja eficaz e eficiente.
Quando a pessoa realizou uma etapa suficientemente, dá-se o trabalho como satisfatório, e abre-se a etapa seguinte. Abrir uma etapa é reconhecer que a pessoa está em condições de acessar a etapa com grandes chances de fruição. Não faz o menor sentido abrir a etapa para uma pessoa e, na sequência, esta pessoa ficar apenas fascinada e perplexa. Não faz o menor sentido convidar uma pessoa despreparada para um desafio: isto é convidá-la a fracassar.
Com base na sua sagacidade, os Mestres do passado refinaram o sistema de tal maneira que, em cada etapa, a pessoa se defronte com um conteúdo e um desafio adequados para o grau de preparação que ela têm. Em particular, a primeira etapa foi desenhada para que ela seja realizável por qualquer pessoa — já que não há preparação prévia para a primeira etapa.
Quando o membro da Ordem se arroga “ser” a etapa atual, e corta fora do seu espaço e do seu tempo as etapas “passadas”, ele convida para si mesma a catástrofe. Ele está jogando fora os recursos que foram obtidos pela sua defrontação com o conteúdo e o desafio que foram propostos pelas etapas anteriores. Por mais que se assuma que “a iniciação passada permanece comigo”, de nada adianta uma “iniciação passada” que o sujeito empurra para fora. A pessoa que faz isso revela compreender os graus como cargos e patentes, e não como desafios e recursos. Em particular, ela não compreende o grau como o método que é peculiar a etapa.
O Junior em cujo processo eu interferi se sentia perdido, sem saber o que fazer, sem rumo, sem destino. Que etapa do Sistema trabalha essa condição, que etapa do Sistema propõe o método que resolve esta situação? O Probacionista, a primeira etapa.
Isso significa a necessidade de uma demoção, “voltar o grau”? Pensar assim é pensar justamente o Grau como Ser. Por que seria necessário para uma pessoa de grau mais alto “voltar o grau” para trabalhar o método do Probacionista? O fato de ter acesso ao grau mais alto significa justamente que ela tomou posse satisfatoriamente do grau de Probacionista. O problema está nela, iludida pelo Ser do Grau, pensar que jamais aplicará aquele método novamente — pensar que o método seja “coisa de Probacionista”.
O método de arrancar a partir do Zero, dar a partida, sair do ponto morto, é um método extremamente útil. Que ele seja o método apresentado para a pessoa despreparada, que acabou de chegar, não o torna menos útil, pelo contrário; ele é o método aplicável a qualquer tempo, em quaisquer condições. Arrogar-se Ser um grau mais alto, neste mundo mutável, é pretender nunca mais estar em condições de despreparo; quem pode dizer isso, que após um certo tempo passado de preparação, nunca mais esteve ou estará em um momento de despreparo?
A mesma lógica vale para qualquer outro grau, com o método que corresponde: quando quer que se esteja nas condições que correspondem, aquele será o método adequado.
Não é o Adepto justamente a pessoa armada em todos os pontos?
Fiz, portanto, minha recomendação a Junior: se você está no ponto morto então aplica o método do ponto morto, que você já conhece e já sabe usar. O que vai resultar disso, só o tempo vai dizer.

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