(artigo originalmente publicado na Revista 777, ano 2, vol. 11, inverno de 2020.)
The person who confesses that there is such a thing as truth, which is distinguished from falsehood simply by this, that if acted on it will carry us to the point we aim at and not astray, and then, though convinced of this, dares not know the truth and seeks to avoid it, is in a sorry state of mind indeed.1
Logo ao anunciar-se para o mundo nas primeiras páginas da sua primeira publicação,2 A⸫ A⸫ usou a expressão “iluminismo científico” para qualificar seu método e seu sistema. Do mote — o método da ciência, o objetivo da religião — podemos inferir que “iluminismo” refere-se ao contexto religioso, da iluminação espiritual.3 Qual é o sentido para “científico” nesse contexto? O que pode haver de científico em um sistema de iluminação espiritual? Nesta breve discussão, vamos nos debruçar sobre um dos aspectos implícitos no conceito: a pesquisa.
Pesquisa é uma palavra com sentidos envolvendo o estado de dúvida e as ações que se toma para saná-lo. Pesquisador é uma pessoa atuando para satisfazer uma dúvida, para transformá-la em certeza. A história da pesquisa está intimamente relacionada à história da dúvida e a história da certeza. Sabemos que dúvidas significativas já estavam sendo solucionadas pelas civilizações mesopotâmicas e andinas, entre outras, três mil anos antes do início do calendário gregoriano. Estes povos domesticavam animais, praticavam agricultura com sistemas de irrigação, fabricavam objetos em diversos materiais, mediam o tempo, acompanhavam os ciclos naturais e nos deixaram impressionantes monumentos construídos artificialmente. Ao longo dos cinco mil anos seguintes, diversas novas dúvidas foram sanadas sobre estes e outros assuntos de ordem material, bem como outros ainda de ordem mais abstrata. Toda essa história está hoje subsumida na grandiosa História da Ciência.4
Para compreender o contexto do “iluminismo científico” é crucial uma visão do processo chamado de “revolução científica”. Os detalhes deste processo não caberão nesta breve discussão. Será suficiente reconhecer uma de suas rupturas fundamentais, uma cisão na forma de solucionar dúvidas: ao invés de consultar a Autoridade, consultar as próprias coisas.
Pierce, no “The Fixation of Belief”, descreve quatro métodos para solucionar dúvidas: o método da tenacidade, o método da autoridade, o método a priori e o método científico. Ele descreve assim o “método da autoridade”:5 “Let an institution be created which shall have for its object to keep correct doctrines before the attention of the people, to reiterate them perpetually, and to teach them to the young; having at the same time power to prevent contrary doctrines from being taught, advocated, or expressed. Let all possible causes of a change of mind be removed from men’s apprehensions. (…) Then let all men who reject the established belief be terrified into silence.” Instituições como a Igreja Católica exerceram esta função na sociedade europeia por séculos. O crime de heresia levaria a pessoa à morte, ao encarceramento ou ao ostracismo. Neste ambiente, a pesquisa se resume à interpretação: o dogma contém o que há para saber.
Na opinião de Peirce, o método da autoridade, por mais eficiente seja, não suportará o teste do tempo:6 “But no institution can undertake to regulate opinions upon every subject. Only the most important ones can be attended to, and on the rest men’s minds must be left to the action of natural causes. This imperfection will be no source of weakness so long as men are in such a state of culture that one opinion does not influence another — that is, so long as they cannot put two and two together.” Cornelis de Waal, discutindo a obra de Peirce, cita o caso de Galileo:7 “A famous example is the swinging lamp in the cathedral of Pisa that awoke the young church-going Galileo’s interest in physics, an interest that was instrumental in ending the authoritatively fixed belief that the earth is the unmoving center of the universe.” De acordo com Peirce,8 “To satisfy our doubts, therefore, it is necessary that a method should be found by which our beliefs may be caused by nothing human, but by some external permanency — by something upon which our thinking has no effect. (…) It must be something which affects, or might affect, every man. And, though these affections are necessarily as various as are individual conditions, yet the method must be such that the ultimate conclusion of every man shall be the same.” Para satisfazer nossas dúvidas de uma maneira que não depende do que a Autoridade acha, do que eu acho, do que você acha ou do que qualquer pessoa em particular acha, se faz necessário um tipo de pesquisa diferente da interpretação do dogma.
Hoje, denominamos Ciência a coleção dos princípios, métodos e ferramentas que viabilizam este tipo de pesquisa. Peirce os resume em uma hipótese fundamental:9 “There are real things, whose characters are entirely independent of our opinions about them; those realities affect our senses according to regular laws, and, though our sensations are as different as are our relations to the objects, yet, by taking advantage of the laws of perception, we can ascertain by reasoning how things really are”. O saber será oferecido pelas próprias coisas aos sentidos do pesquisador.
Em uma das principais instruções da A⸫ A⸫, “Liber Exercitiorum”, encontramos uma orientação espiritual atípica: “It is absolutely necessary that all experiments should be recorded in detail during, or immediately after, their performance. It is highly important to note the physical and mental condition of the experimenter or experimenters. The time and place of all experiments must be noted; also the state of the weather, and generally all conditions which might conceivably have any result upon the experiment either as adjuvants to or causes of the result, or as inhibiting it, or as sources of error. (…) The written record should be intelligibly prepared so that others may benefit from its study. (…) The more scientific the record is, the better. Yet the emotions should be noted, as being some of the conditions.” Esta orientação notável estabelece o testemunho dos sentidos como uma fonte primária do saber sobre o resultado das práticas realizadas. Elementos subjetivos são reconhecidos lado a lado a elementos objetivos como parte do real: é preciso observar e registrar a temperatura tanto quanto as emoções.
Neil deGrasse Tyson descreve o método científico de uma maneira muito curiosa:10 “The scientific method is: do whatever it takes, whatever it takes, to not fool yourself into thinking that something is true that is not, or into thinking that something is not true that is. That is the scientific method. Whatever it takes.” Ao assumir um real independente do que eu, você ou qualquer pessoa em particular pense dele, torna-se evidente a possibilidade de que se tenha sobre este real uma certeza com a qual ele mesmo não concorda. Em outras palavras, algo que é independentemente do que se pensa dele, justamente, o que se pensa dele é independente do que ele é. Ao abandonar a autoridade e fazer referência às coisas, procuramos pensar sobre elas pensamentos conforme o que elas são. De acordo com Tyson,11 “It’s you and Nature. And you know the cool thing about it? Nature is the ultimate judge, jury and executioner. You can argue all you want. But if Nature doesn’t agree with you, you are wrong. Whatever bias you are bringing to the table, Nature will decide. So you have to make sure that your methods and tools allow Nature to manifest in whatever way it can, to give you the guidance to where the Truth lays.”
A possibilidade da auto-ilusão, o desvio do pensamento pelo viés, é reconhecida pela A⸫ A⸫ em suas instruções. Em outra de suas principais instruções, “Liber Manus et Sagittae”, encontramos uma abordagem deste risco: “It is essential that he remain the master of all that he beholds, hears or conceives; otherwise he will be the slave of illusion, and the prey of madness. (…) There is little danger that any student, however idle or stupid, will fail to get some result; but there is great danger that he will be led astray, obsessed and overwhelmed by his results, even though it be by those which it is necessary that he should attain.” É devido estabelecer controle sobre o erro. Os sentidos, fonte de informação sobre o resultado das experiências, devem ser corrigidos sempre contra a possibilidade de desvio.
No editorial do primeiro número do “Equinox”, esta preocupação está expressa:12 “a series of scientific experiments, designed to instruct beginners in the groundwork of Scientific Illuminism, and to prevent them from falling into the self deception which pride always prepares for the unwary.” Justamente por seu alto grau de subjetividade, a pesquisa proposta pela A⸫ A⸫ é particularmente sujeita a produção de falsas certezas. Não apenas aquelas da auto-ilusão, mas, também, da ilusão produzida por terceiros. No mesmo editorial, esta preocupação particular está expressa: “It is easy for every charlatan to perform wonders, to bewilder and even to deceive not only fools but all persons, however shrewd, untrained in observation ; nor does the trained observer always succeed instantly in detecting the fraud.”
Como visto, o método científico busca sanar a dúvida por referência às coisas, ao invés de autoridade ou outro dispositivo. Porém, esta referência, mediada pelos sentidos, inclui uma condição inerente de desvio. Através da referência direta às coisas, eu evito o erro do viés alheio, mas não evito o erro do meu viés. Além disso, nada está dito ainda sobre o poder dos próprios sentidos neste processo. Parafraseando Tyson, são necessários métodos e ferramentas para empoderar a Natureza a se apresentar em imagens mais e mais perfeitas, nos guiando para verdades mais e mais conformes às coisas.
Consideremos as ferramentas. Dois exemplos básicos de ferramentas desenvolvidas para este fim são o telescópio e o microscópio. Com o seu auxílio, imagens mais perfeitas são obtidas das coisas muito grandes e distantes e das coisas muito próximas e pequenas. Com o aumento da acurácia na observação da posição e dos movimentos das coisas, um saber mais e mais certo sobre a sua dinâmica pôde ser desenvolvido. Hoje, somos capazes de antecipar com grande precisão o futuro próximo ao ponto de sermos capazes de causar naves espaciais a chegar em um destino previsto do outro lado do sistema solar. A operação de ferramentas como o telescópio e o microscópio está sujeita a um baixo grau de subjetividade. Para a geração de um saber objetivo, esta propriedade é inestimável. A partir dos grandes sucessos entregues por suas ciências, uma noção particular do que Ciência deve ser acabou por se consolidar. De acordo com sir Arthur Eddington,13 “This question is very much simplified by the fact that, although all our senses may be used for exploring the physical universe, most of them are redundant and merely corroborate the information which can be obtained by others. It is therefore unnecessary to know at this stage the exact scope of the term ‘sensation’. It is sufficient if we can distinguish by direct awareness a particular class of sensations, which by itself is sufficient to reveal all that is known of the physical universe. Ideally all our knowledge of the physical universe could have been reached by visual sensation alone — in fact, by the simplest form of visual sensation, colourless and non-stereoscopic.” Esta noção de Ciência não reconhece a necessidade ou pertinência de um acesso completo dos sentidos ao real. Não há um real que exija mais do que um único e simplório sentido para perceber. A experiência completa das coisas reais é redutível a leitura de um ponteiro em um instrumento de medida. De acordo com Ernst Lehrs,14 “Science, since Galileo, has been rooted in the conviction that the logic of mathematics is a means of expressing the behaviours of natural events. The material for the mathematical treatment of sense data is obtained through measurement. The actual thing, therefore, in which the scientific observer is interested in each case, is the position of some kind of pointer. In fact, physical science is essentially, as Professor Eddington put it, a ‘pointer-reading science’. Looking at this fact in our way we can say that all pointer instruments which man has constructed ever since the beginning of science, have as their model man himself, restricted to colourless, non-stereoscopic observation. For all that is left to him in this condition is to focus points in space and register changes of their positions. Indeed, the perfect scientific observer is himself the arch-pointer-instrument.”
Nesta concepção de Ciência não há espaço para um real cujas condições incluem emoções. As limitações desta concepção são notadas por E. F. Schumacher em seu “Guide for the Perplexed”:15 “Restricting ourselves to this mode of observation, we can indeed eliminate subjectivity and attain objectivity. Yet one restriction entails another: We attain objectivity, but we fail to attain knowledge of the object as a whole. Only the ‘lowest’, the most superficial, aspects of the object are accessible to the instruments we employ; everything that makes the object humanly interesting, meaningful and significant escapes us.” Schumacher aborda o problema nos termos de uma adequatio:16 “The Great Truth of ‘adequatio’ affirms that nothing can be perceived without an appropriate organ of perception and that nothing can be understood without an appropriate organ of understanding.” Esta observação o conduz a construir uma estrutura de “níveis de existência” caracterizados pela adequatio capaz de percebê-los: o “mundo mineral” perceptível pelos sentidos imediatos, o “mundo vegetal” perceptível pela “vida”, o “mundo animal” perceptível pela “consciência” e o “mundo humano” perceptível pela “autoconsciência”. Não precisamos admitir o modelo de Schumacher para reconhecer que o alvo da Religião, a solução das dúvidas típicas do “iluminismo”, não será atingido por leituras do ponteiro de um eletroencefalograma. Como disse Wilde,17 “Em uma palavra, é indispensável, como pedia o oráculo grego, conhecer-se a si mesmo. Este é o primeiro passo para a sabedoria. Mas a última frase desta se alicerça em convencermo-nos da insondabilidade da alma humana. Nós próprios somos o mistério final e mesmo depois de havermos calculado o peso do sol e as fases da lua e traçado o mapa dos sete céus, resta-nos ainda conhecermo-nos a nós mesmos. Quem poderia calcular a órbita de sua própria alma?” Não podemos admitir esta concepção de Ciência como aplicável para os experimentos do Iluminismo Científico. Seus métodos e ferramentas são inadequados.
Esta concepção restrita não é necessária. Como vimos anteriormente, temos à nossa disposição uma concepção de Ciência que não a restringe ao alcance de uma visão monocromática não-estereoscópica. Para satisfazer concepções como as de Peirce e Tyson, deve-se empregar as ferramentas necessárias para referir nossas dúvidas à Natureza, ao Real, e fazer tudo o que for possível para permitir que a verdade sobre as coisas esteja conforme as próprias coisas e não aos nossos diversos vieses e auto-ilusões. Ao invés de um critério de exclusão baseado na existência ou não existência de instrumentos com ponteiros, temos um critério de acurácia baseado no grau de aperfeiçoamento dos sentidos usados para obter das coisas o seu testemunho.
A pesquisadora do Iluminismo Científico tem a sua disposição portanto uma concepção de Ciência adequada para cumprir a meta da A⸫ A⸫, atingir o alvo da Religião. Métodos estão definidos através dos quais a pesquisadora poderá reproduzir a pesquisa de seus predecessores. A dúvida sobre a coisas será sanada pela observação pessoal conforme o testemunho dos próprios sentidos. A admissão de um real independente da pesquisadora a conduz, pelos critérios e recomendações da Ciência, a empregar todos os métodos e ferramentas que estiverem ao seu alcance para controlar o erro da observação e corrigir o viés e a auto-ilusão que fatalmente afetará suas conclusões. Isto não implica admitir que nenhuma coisa em particular é real, mas, pelo contrário, admitir que existe alguma coisa pode ser ou pode não ser real, pode ser ou pode não ser um artefato da nossa opinião. Isto não implica excluir os objetos subjetivos do real, mas, pelo contrário, reconhecer a existência desses objetos conforme o testemunho que os sentidos dão sobre eles, e empregar controles sobre sua observação para diminuir o erro.
Não esgotamos todas as características atribuídas a concepção de Ciência. Em particular, não tocamos na questão da mútua corroboração. Porém, construímos uma imagem da pesquisa científica, e a encontramos adequada para responder questões do Iluminismo Científico, desde pequenas questões, como “esta afirmação sobre pranayama é verdade?”, até grandes questões, como “qual é a natureza e os poderes do meu próprio ser?”.
- Charles S. Pierce, “The Fixation of Belief”, in “Popular Science Monthly”, vol. 12, new York, 1877-1878, p. 14.
- “The Equinox”, volume I, número 1, London, 1909, pp. 2-3.
- Ao invés do pensamento típico do período histórico de mesmo nome.
- Veja, por exemplo, Lynn Thorndike, “A History of Magic and Experimental Science”.
- Peirce, op. cit., p. 8.
- Peirce, op. cit., p. 9.
- Cornelis de Wall, “Peirce: a Guide for the Perplexed”, capítulo 6, seção 2.
- Peirce, op. cit., p. 11.
- Peirce, op. cit., p. 10.
- masterclass.com, “Neil deGrasse Tyson”, aula três, acessada na data 2020-04-29.
- idem.
- “The Equinox”, vol. I, n. 1, editorial.
- Arthur Eddington, “The Philosophy of Physical Science”, Cambridge, 1949, p. 197.
- Ernst Lehrs, “Man or Matter”, Faber and Faber ltd., 1951, p. 132.
- E. F. Schumacher, “Guide for the Perplexed”, Perennial Library, 1979, p. 53.
- E. F. Schumacher, op. cit., p. 50.
- Oscar Wilde, “A Tragédia de Minha Vida”, Biblioteca Universal Popular, volume 32, 1964.

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