Para uma Genealogia de Viagem Astral

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Trabalho apresentado no colóquio Pestilência em Foco em outubro de 2020.

“Ma volonté, Messieurs, moteur de tous mes actes et de toutes mes déterminations, l’est également de mons action magnétique.”

Armand-Marie-Jacques de Chastenet,
marquês de Puységur1

O esoterismo ocidental, como compreendido pelo folclore, inclui diversos elementos peculiares, como as cerimônias, as palavras mágicas e os talismãs, dentre os quais, na nossa opinião, se destaca a Viagem Astral.

Temos esta opinião com base em uma diferença muito curiosa entre a Viagem Astral e os outros elementos do folclore: enquanto os diversos dispositivos mágicos tratam principalmente de obter efeitos visíveis, como enfeitiçar pessoas, descobrir segredos, encontrar tesouros e por aí vai, a Viagem Astral trata principalmente de obter um efeito invisível, a percepção de um mundo invisível. Neste ponto, em nossa opinião, ela é um elemento divergente, peculiar, destacado dos demais.

Neste trabalho, procuramos estabelecer os fundamentos de uma genealogia da Viagem Astral. A partir de uma identificação deste conceito no nosso tempo, retrocederemos no tempo, buscando ocorrências significativas em tempos anteriores.

Nosso objetivo neste momento não será uma busca exaustiva; para estabelecer os fundamentos de sua genealogia, nos limitaremos a marcar pontos significativos da sua história. Antes de nos aprofundarmos sobre sua história, é preciso determinar se existe uma história para começo de conversa.

Assim, iniciamos nossa busca a partir do aqui e agora, com o que nós temos a mão. De acordo com uma busca na Internet, o mais neutra que foi possível,2 este é o primeiro resultado para uma busca por «viagem astral»:

A Projeção Astral é um nome popular para esse fenômeno no qual algumas pessoas percebem-se fora do corpo, vivenciando a realidade à sua volta, podendo até mesmo visualizar o corpo físico adormecido. Esse fenômeno também é conhecido como experiência fora do corpo, desdobramento, viagem astral.

Esta definição encontra-se no website do instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia, cuja história começa com a formação do Centro da Consciência Contínua no Rio de Janeiro, em 1981, posteriormente incorporado na forma do Instituto Internacional de Projeciologia, em 1988. Seu principal fundador, Waldo Vieira, é o autor do monumental “Projeciologia”, obra de caráter enciclopédico, com aprox. 750 páginas contendo centenas de verbetes, como «hibernação consciencial» e «abertura extrafísica».

No “Projeciologia”, monumental obra de Waldo Vieira sobre o tema, encontramos a seguinte definição para a «projeciologia»:

ramo, subcampo, ou subdisciplina da ciência humana, Parapsicologia, que trata das projeções energéticas da consciência (duplo etérico) e das projeções da própria consciência, — através do psicossoma e do corpo mental, — para fora do corpo humano, ou seja, das ações da consciência operando fora do estado de restringimento físico do cérebro e de todo o corpo biológico.3

Esta definição, que depende de uma grande quantidade de elementos, como «duplo etérico» e «psicossoma», contrasta com a simplicidade da definição de «projeção consciente humana»:

experiência peculiar de percepção do meio ambiente, seja espontânea ou induzida, na qual o centro de consciência de alguém parece se situar numa locação espacial separada do próprio corpo humano vivo.4

A obra reserva o capítulo 7 inteiro para as técnicas da projeção consciente. Como nosso objetivo não é uma análise aprofundada, nos limitamos a uma breve referência feita logo nas primeiras páginas.

Como se produz a projeção consciente? Através da alteração das frequências vibratórias ou energéticas dos veículos de manifestação da consciência.5

Essas conceituações são compatíveis com aquelas encontradas inicialmente e geralmente associadas a «viagem astral» no discurso comum. Um passeio pela literatura espírita e pela literatura “new age” encontra conceituações similares, sendo o ponto comum haver algum tipo de percepção em uma condição de se estar, de alguma maneira, fora do próprio corpo.

Em nossa biblioteca, a publicação mais recente que identificamos abordar o conceito explicitamente é o “Living Thelema”, de David Shoemaker, publicado em 2013.6 Nesta obra, contamos 55 ocorrências da palavra «astral». O capítulo 11, “Astral Projection & the Control of the Body of Light”, dedica-se completamente ao tema. Infelizmente, o autor não assume o trabalho da definição: ele admite o conceito como dado e, no máximo, faz referência ao “Notes for an Astral Atlas” de Aleister Crowley.

Aleister Crowley, nascido na Inglaterra, onde viveu a maior parte da sua vida, viveu entre 1875 e 1945, e se fez notar em diversas áreas, como a poesia, o montanhismo e a magia, sobre a qual deixou uma vasta obra.

A referência feita por Shoemaker encontra-se no apêndice 3 do “Book Four” de Crowley. Este apêndice discursa variadamente sobre o tema, mas, não inclui algum tipo de definição ou conceituação do que «viagem astral» significa. O “Book Four”, composto por quatro partes originalmente publicadas separadamente, é de uma tal importância e notoriedade, e também de um tal volume e abrangência, que decidimos investir nele mais profundamente.

No “Book Four”, encontramos 56 ocorrências da palavra «astral»,7 singular ou composta, como em «corpo astral» ou «plano astral». Entre essas aplicações, encontramos duas onde o autor busca diretamente transmitir o seu significado.

Encontramos a primeira na parte 2, capítulo 16, publicada originalmente em 1913.

In the burning up of these things arise in our imagination those terrifying or alluring phantasms which throng the “Astral Plane.” This smoke represents the “Astral Plane,” which lies between the material and the spiritual. (…)

When a man shuts his eyes and begins to look about him, at first there is nothing but darkness. If he continues trying to penetrate the gloom, a new pair of eyes gradually opens.

(…)

At first the seer will perceive gray gloom; in subsequent experiments perhaps figures may appear with whom the seer may converse, and under whose guidance he may travel about.8

Encontramos a segunda na parte 3, capítulo 18, publicada originalmente em 1930.

Within the human body is another body of approximately the same size and shape, but made of a subtler and less illusory material. (…)

Now this fine body perceives a universe which we do not ordinarily perceive. It does not necessarily perceive the universe which we do normally perceive, so although in this body I can pass through the roof, it does not follow that I shall be able to tell what the weather is like. (…)9

Nestas definições, encontramos uma visão excepcional capaz de ver excepcionalmente, e que esta visão está de algum modo relacionada com um corpo alternativo que coexiste com o corpo normal. Nos parece haver uma continuidade conceitual daqui para o “Projeciologia”, com sua noção de haver um corpo diferente ao qual corresponde uma visão diferente.

É notável, porém, que não seja de particular importância uma noção de estar ou não estar fora do corpo. Nessas duas definições, a ideia de estar fora do corpo ou separar-se do corpo não tem importância suficiente para figurar explicitamente. Este nos parece um afastamento significativo do “Projeciologia”, merecendo atenção.

Neste momento, nos contentaremos em uma rápida investigação. O próprio “Living Thelema”, que nos conduziu até aqui, resolve a divergência da seguinte maneira:

One of the issues that should be clarified right at the outset is the distinction between the etheric body and the astral body. (…)

(…) When etherically projecting, you’re going to be in a “body” that rather closely resembles your physical body, and the landscape that you’re exploring will be like an energetic skeleton of your actual physical surroundings. An etheric projection experience will give you the sensation of leaving your body and walking around the room, the house, the neighborhood, and so on. An astral projection experience, on the other hand, will take you to a landscape that is completely different from your physical surroundings, and quite possibly different from any materially existing place whatsoever.10

Esta distinção encontramos em diversos manuais de “new age” e esoterismo. Curiosamente, tudo indica que a genealogia própria disto que Shoemaker chama de “etérico” leva, por outro caminho, ao mesmo destino onde nós chegaremos. Isto ficará como assunto para uma pesquisa posterior.

Estamos procurando pelos descendentes do conceito de Viagem Astral e já encontramos o que aparenta ser um salto geracional. Vamos perseguir esta hipótese um pouco mais.

Avaliando cuidadosamente o “Book Four”, encontramos uma excelente pista. Na parte 3, capítulo 14, encontramos o autor trabalhando o conceito de “magickal link”, e utilizando o termo «astral» como parte da exposição. O autor critica seus pares que negligenciam o “magickal link”, e sobre isso, faz o seguinte comentário:

It is not too much to say that this failure to understand the conditions of success accounts for the discredit into which Magick fell until Éliphas Lévi undertook the task of rehabilitating it two generations ago. But even he (profoundly as he studied, and luminously as he expounded, the nature of Magick considered as a universal formula) paid no attention whatever to that question of the Magical Link, though he everywhere implies that it is essential to the Work. He evaded the question by making the petitio principii of assigning to the Astral Light the power of transmitting vibrations of all kinds. He nowhere enters into detail as to how its effects are produced. He does not inform us as to the qualitative or quantitative laws of this Light. (The scientifically-trained student will observe the analogy between Levi’s postulate and that of ordinary science in re the luminiferous ether.)11

Neste capítulo, Crowley reiteradamente utiliza «astral» ou «astral light» para fazer referência a condições ou meios de estabelecer o “magickal link”. Isto nos parece uma aplicação do termo muito afastada daquela vista anteriormente. A dica que o autor nos dá é um nome: Éliphas Lévi.

Éliphas Lévi Zahed, pseudônimo de Alphonse Louis Constant, nascido na França, viveu entre 1810 e 1875, escrevendo prolificamente sobre assuntos como política e esoterismo.

Crowley afirma explicitamente que Éliphas Lévi pensou “profundamente” sobre o problema do “magickal link”, mas, não cita uma obra em particular. Em função das limitações deste estudo, selecionamos arbitrariamente o “Dogme et Rituel de la Haute Magie”, primeira e mais famosa obra de Éliphas Lévi, e aprofundamos a leitura do primeiro tomo, “Dogme”, publicado originalmente em 1854, por sua natureza teórica.

No “Dogme”, encontramos 82 ocorrências de «astral», pouquíssimas vezes singular, em sua vasta maioria composta em «lumière astrale». Não encontramos de imediato nenhuma expressão comparável à «viagem astral» (como, digamos, «voyage astrale»).

Procuramos, então entender a relação entre esta «lumière astrale» e a «astral light» de Crowley, e o que teria isto a ver com a Viagem Astral cuja genealogia estamos tentando traçar. A princípio, foi difícil identificar o conceito na obra: não há qualquer vestígio de uma multiplicidade de “corpos”, muito menos ainda uma noção de “sair do corpo”. Apesar disso, encontramos um elo no capítulo 5, cuja compreensão exigirá paciência com uma citação mais extensa.

Disons maintenant comment s’opère la vision.

Toutes les formes correspondent à des idées, et il n’y a pas d’idée qui n’ait sa forme propre et particulière.

La lumière primordiale, véhicule de toutes les idées, est la mère de toutes les formes et les transmet d’émanation en émanation, diminuées seulement ou altérées en raison de la densité des milieux.

Les formes secondaires sont des reflets qui retournent au foyer de la lumière émanée.

Les formes des objets, étant une modification de la lumière, restent dans la lumière où le reflet les renvoie. Aussi la lumière astrale ou le fluide terrestre que nous appelons le grand agent magique, est-il saturé d’images ou de reflets de toutes sortes que notre âme peut évoquer et soumettre à son diaphane, comme parlent les cabalistes. Ces images nous sont toujours présentes et son seulement effacées par les empreintes plus fortes de la réalité pendant la veille, ou par les préoccupations de notre pensée, qui rendent notre imagination inattentive au panorama mobile de la lumière astrale. Quand nous dormons, ce spectacle se présente de lui-même à nous, et c’est ainsi que se produisent les rêves: rêves incohérents et vagues, si quelque volonté dominante ne rest active pendant le sommeil et ne donne, à l’insu même de notre intelligence, une direction au rêve, qui alors se transforme en songe.

Le magnétisme animal n’est autre chose qu’un sommeil artificiel produit par l’union, soit volontaire, soit forcée, de deux âmes dont l’une veille pendant que l’autre dort, c’est-à-dire dont l’une dirige l’autre dans le choix des reflets pour changer les rêves en songes et savoir la vérité au moyen des images.

Ainsi les somnambules ne vont pas réellement aux endroits où le magnétiseurs les envoie; elles en évoquent les images dans la lumière astrale, et ne peuvent rien voir de ce qui n’existe pas dans cette lumière.12

As ocorrências restantes de «astral» na obra parecem, todas, elaborações das noções fundamentais apresentadas aqui. Existe algo denominado «lumière astrale» com a virtude de reter e manifestar formas, e as pessoas, em condições tais e tais, são capazes de ver tais formas diretamente dali. O fenômeno do sonho é reduzido a isto. Além disso, o autor faz uma colocação curiosa sobre algo denominado «magnétisme animal».

Este «magnétisme» é muito difícil de não se fazer notar pelo leitor: encontramos quase 130 ocorrências da raiz entre «magnétisme», «magnétique», «magnétiseur» e outras.

Além disso, a relação entre «lumière astrale» e «magnétisme» é firmemente estabelecida. Ainda no capítulo 5 encontramos a elaboração desses conceitos, em alternância:

La lumière astrale a une action directe sur les nerfs, qui en sont les conducteurs dans l’économie animale, et qui la portent au cerveau; aussi, dans l’état de somnambulisme, peut-on voir par les nerfs, et sans avoir besoin même de la lumière rayonnante, le fluide astral étant une lumière latente, comme la physique a reconnu qu’il existe un calorique latent.

Le magnétisme à deux est sans doute une merveilleuse découverte; mais le magnétisme d’un seul se rendant lucide à volonté et se dirigeant lui-même, c’est la perfection de l’art magique; et le secret de ce grand œuvre n’est pas à trouver: il a été connu et pratiqué par un grand nombre d’initiés, et surtout par le célèbre Appollonius de Thiane, qui en a laissée une théorie, comme nous le verrons dans notre Rituel.

Le secret de la lucidité magnétique et la direction des phénomènes du magnétisme tiennent à dieux chose: à l’harmonie des intelligences et à l’union parfaite des volontés dans une direction possible et déterminée par la science; ceci est pour le magnétisme opéré entre plusieurs. Le magnétisme solitaire demande les préparations dont nous avons parlé dans notre premier chapitre, quand nous avons énuméré et fait voir dans toute leur difficulté les qualités requises pour être un véritable adepte.13

Éliphas Lévi constrói uma noção clara de que a capacidade de magnetizar-se é a condição da lucidez ou vidência da luz astral. Aqui, temos alguma similaridade com a Viagem Astral, que em todos os casos tratava-se de uma condição de excepcional de ver.

Toda a obra parece uma aplicação desta noção como núcleo de explicações elaboradas para fenômenos esquisitos, como o enfeitiçamento e a licantropia. A suposição da existência deste meio parece corresponder ao modo como Aleister Crowley usa «astral light» para denominar um meio por onde se pode estabelecer algo denominado «magickal link».

Éliphas Lévi em nenhum momento pressupõe uma sucessão de corpos, muito menos ainda algum tipo de processo de separação de corpos: como visto nas citações anteriores, ele pressupõe que há um meio onde formas estão para serem vistas, e uma condição especial em que a pessoa se põe capaz de vê-las, e para denominar essa condição especial ele fala sobre «magnétisme»: “magnétisme d’un seul”, “magnétisme solitaire”. A recorrência desse termo em todos os contextos, e sua constante colocação junto à «lumière astrale» nos faz intrigados: deve ser uma pista. Mas, desta vez, uma pista um pouco mais difícil de seguir. O que tem magnetismo a ver com a história?

Novamente, o próprio autor dá a dica. Notamos que, diversas vezes, ele afirma que denomina «lumière astrale» a algo que ele também denomina «grand agent magique», dois nomes para a mesma coisa: “Aussi la lumière astrale ou le fluide terrestre que nous appelons le grand agent magique (…)”. Ajustando nossa atenção, encontramos a dica, logo na introdução:

Il existe aussi dans la nature une force bien autrement puissante que la vapeur, et au moyen de laquelle un seul homme, qui pourrait s’en emparer et saurait la diriger, bouleverserait et changerait la face du monde. Cette force était connue des anciens: elle consiste dans un agent universel dont la loi suprême est l’équilibre et dont la direction tient immédiatement au grand arcane de la magie transcendante. Par la direction de cet agent, on peut changer l’ordre même des saisons, produire dans la nuit les phénomènes du jour, correspondre en un instant d’une extrémité à l’autre de la terre, voir, comme Appollonius, ce qui se passe à l’autre bout du monde, guérir ou frapper à distance, donner à la parole un succès et un retentissement universels. Cet agent, qui se révèle à peine sous les tâtonnements des disciples de Mesmer, est précisément ce que les adeptes du moyen âge appelaient la matière première du grand œuvre. Les gnostiques n faisaient le corps igné du Saint-Esprit, et c’était lui qu’on adorait dans les rites secrets du sabbat ou du temple, sous la figure hiéroglyphique de Baphomet ou du bouc Androgyne de Mendès. Tout cela démontré.14

Quem é este Mesmer, a cujos discípulos o grande agente mágico se revela ao tato? O nome Mesmer é citado no “Dogme” três vezes:

Cet agent, qui se révèle à peine sous les tâtonnements des disciples de Mesmer, est précisément ce que les adeptes du moyen âge appelaient la matière première du grand œuvre.15

La baquet de Mesmer était une chaîne magique assez imparfaite; (…)16

Mais Paracelse avait découvert le magnétisme bien avant Mesmer, et avait poussé jusqu’aux dernières conséquences cette lumineuse découverte (…)17

Para responder essa pergunta, precisamos ir ainda mais para trás no tempo, e entrar em território menos familiar ao esotérico do início do  século XXI. Essa viagem nos levará a um lugar curiosamente familiar: nossas referências a partir daqui serão principalmente o “Discovery of the Unconscious”, de Henri Ellenberger, e “From Mesmer to Freud”, de Adam Crabtree. 

Franz Anton Mesmer, nascido na Alemanha, viveu entre 1734 e 1815. Mesmer completou seus estudos em medicina em 1766, com a publicação de sua “Dissertatio physico-medica de planetarum influxu”, onde já se reconhecem os princípios daquilo que viria a ser sua grande contribuição e o trabalho que consumiria o resto de sua vida: o “magnetismo animal”.

Ellenberger dá o ano de 1774 como o marco histórico do Magnetismo Animal, quando Mesmer trata em sua residência uma jovem paciente afligida com inúmeros sintomas. De um bem sucedido tratamento envolvendo magnetos aplicados ao corpo da jovem, Mesmer obteve o entendimento de que estes magnetos não curaram por si mesmos, mas, serviram de ferramenta para a aplicação de um fluído acumulado em seu próprio corpo, o qual ele denominou «magnetismo animal».

De acordo com Mesmer, o Magnetismo Animal era uma nova ciência que aproximava as ciências conhecidas da Astronomia e da Medicina. Pela expressão «magnetismo animal» ele designava uma das operações universais da natureza, cuja arte seria um meio para curar e preservar a saúde as pessoas.

Ellenberger sumariza o sistema de Mesmer em quatro pontos:

(1) A subtle physical fluid fills de universe and forms a connecting medium between man, the earth, and the heavenly bodies, and also between man and man. (2) Disease originates from the unequal distribution of this fluid in the human body; recovery is achieved when the equilibrium is restored. (3) With the help of certain techniques, this fluid can be channeled, stored, and conveyed to other persons. (4) In this manner, “crises” can be provoked in patients and diseases cured.18

Desta exposição, a referência de Éliphas Lévi a Mesmer começa a se esclarecer. Ambos pressupuseram a existência de um meio físico através do qual efeitos excepcionais se poderiam transmitir. Mesmer de fato magnetizava os doentes a fim de lhes conduzir, de crise em crise, à cura. A referência de Levi à “baquet de Mesmer” refere-se a um dispositivo usado por Mesmer para acumular o fluído e posteriormente distribuí-lo para diversas pessoas. Tudo o que resta para completar este quadro é encontrar a relação entre tudo isso e a visão de formas e imagens, elemento crucial para a doutrina de Lévi e característica genealógica indispensável da nossa pesquisa.

Felizmente, a indicação da resposta encontramos nos próprios trabalhos de Ellenberger e Crabtree. A influência de Mesmer foi significativa em seu tempo, e muitos discípulos aprenderam com o mestre e desenvolveram a arte. Um destes desenvolvimentos produziu uma radical alteração na doutrina, preenchendo a lacuna e completando a cadeia que estamos procurando rascunhar.

Entre os primeiros discípulos de Mesmer estavam três filhos da tradicional família de Puységur, uma ilustre família da nobreza francesa. Inspirado por seu irmão Antoine, o irmão mais velho, Armand-Marie-Jacques, marquês de Puységur, estudou o mesmerismo na Sociedade da Harmonia, fundada por Mesmer, em Paris.

Em 1784, tratando um jovem camponês, o marquês encontrou uma condição até então desconhecida pelos mesmeristas. Ao invés das esperadas crises, o jovem entrou num estado pacífico que posteriormente denominou “sonambulismo”. A partir desta primeira experiência, o marquês desenvolveu uma nova doutrina, do “sonambulismo magnético”, que conduziu o mesmerismo em uma nova direção.

Em sua doutrina, o estado de “sonambulismo magnético” é o  resultado perfeito do magnetismo, do qual as crises seriam um resultado imperfeito ou parcial. Este estado se caracteriza por sua similaridade com sonambulismo, com a diferença de uma evidente lucidez por parte do sonâmbulo, que permanece capaz de conversação inteligente. Mais do que isso, neste estado, o paciente demonstra diversas características excepcionais, como demonstrar inteligência superior ao estado normal, variados níveis de telepatia entre o magnetizado e o magnetizador, e poderes de percepção extrasensorial. Este último habilita o sonâmbulo a ver sua doença e a doença dos outros, diagnosticá-la, prescrever seu remédio e acompanhar sua progressão.

Crabtree e Ellenberger mostram como a prática da indução do “sonambulismo magnetismo”, desenvolvida pelos discípulos do marquês, eventualmente explorou esta capacidade de percepção para além do diagnóstico de doenças em direção à visão de todo tipo de objetos excepcionais, estabelecendo uma raiz histórica para o fenômeno do espiritismo. Esta ponte, que resta explorar mais profundamente, conecta finalmente a doutrina da visão da luz astral de Lévi com as características do sonambulismo magnético descoberta por Puységur e desenvolvida por seus discípulos, que por sua vez descende diretamente da doutrina do magnetismo animal de Mesmer.

Encontrar a relevância de Mesmer e Puységur para a genealogia da Viagem Astral, cujas obras são pouco citadas em discussões contemporâneas sobre este tema em específico e sobre o grande tema do esoterismo em geral, nos sugeriu concluir aqui nosso rascunho. Autores como Crabtree e Ellenberger, que se ocuparam da história das ciências da psique, não prosseguem para trás além de Mesmer.

Para seguir, nos parece necessário realizar o levantamento de suas obras bem como da pesquisa mais atualizada. A obra inicial de Mesmer sobre “fluxos planetários” parece sugerir descendência da cosmologia “astral” medieval, ajustada por um pensador do Iluminismo. Diversos críticos de Mesmer observaram a similaridade entre sua doutrina e outras, como a de Paracelso.

Concluímos portanto com o encontro de fortes indícios de uma relação genealógica entre as seguintes ideias: as de Waldo Vieira, na segunda metade do século XX; as de Aleister Crowley, na primeira metade do século XX; as de Éliphas Lévi, na metade do século XIX; as do marquês de Puységur, no início do século XIX; e as de Franz Mesmer, no final do século XIX.

Notas

  1. “Du Magnétisme Animal”, pp. 148-149.
  2. Usando um browser no modo anônimo, buscamos no Google pela palavra-chave no dia 10 de outubro de 2020.
  3. op. cit., p. 13.
  4. op. cit., p. 35.
  5. op. cit., p. 36
  6. Não nos esforçamos tanto assim para procurar, e, de qualquer modo, não temos uma biblioteca particularmente vasta.
  7. Até a presente data, procuramos apenas nas quatro partes principais e no terceiro apêndice.
  8. op. cit., pp. 114-115 (168).
  9. op. cit., pp.241-242 (143-144).
  10. op. cit., cap. 11, para. 4.
  11. op. cit., p. 216 (109).
  12. op. cit., pp. 171-172.
  13. op. cit., 172-173.
  14. op. cit., pp. 83-84.
  15. op. cit., p. 84.
  16. op. cit., p. 240.
  17. op. cit. 302.
  18. op. cit., p. 62.

Bibliografia

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