Na minha percepção, e na comunidade espiritual que eu participo, faz parte do status quo manifestar rejeição a “títulos”, “graus” e “cartas patente”. Me parece que essa rejeição tem como componente predominante uma força reativa aos abusos cometidos com uso desses dispositivos. Estes são os casos em que sujeitos mal intencionados constróem aparelhos cheios de “títulos”, “graus” e “cartas patente” de modo a seduzir pessoas e obter vantagem. Além disso, justamente pela ação desses sujeitos mal intencionados, essas coisas são distribuídas a pessoas ilegitimamente, cancelando a pretenção da coisa a significado: se uma pessoa portando um “título” pode ser apenas um iludido que gastou dinheiro, então, o “título” nada significa.
Existe, porém, um problema diferente, que alimenta essa rejeição. Ele é o problema de julgar, justamente, o que um “título”, “grau” ou “carta patente” significa. Um componente desse significado resta nos sistemas sociais comuns, de onde parece que esses objetos surgiram. Um título de nobreza entrega direitos de nobreza. Uma patente de invenção entrega monopólio sobre a fabricação de uma coisa. Um grau institucional dá acesso aos privilégios sociais correspondentes. Essas coisas, tratadas como outorgas de direitos sociais, significam ascensão e posição social, desejáveis para o desorientado, tornando-as repulsivas para aqueles que rejeitam o status quo.
Existe, PORÉM, um problema diferente, que subjaz a problemática social; um problema referente aos processos espirituais. Nós temos acesso, e frequentemente discutimos, o processo espiritual nos termos que nos foram legados pelos Mestres. Nesses termos, nós encontramos o processo espiritual composto de coisas, ações ou eventos, com um nome bem específico. Nós vamos então encontrar Patanjali descrendo coisas como “niyama” ou “prathyahara”; Crowley descrevendo coisas como “practicus” ou “dominus liminis”; e a maçonaria salvaguarda o centenário sistema do “aprendiz”, do “journeyman” e do “mestre” dos ofícios.
Em descrições como as de Patanjali, os nomes se referem muito claramente ou a ações que se deve tomar ou ao efeito das ações que se tomou. O termo asana, por exemplo, descreve ou o “exercício” da postura, ou, o resultado almejado deste exercício. Portanto, é razoável falar tanto sobre “praticar asana”, um exercício, quanto “obter asana”, uma espécie de resultado. Já em descrições como as da maçonaria, o sentido de “aprendiz” é dominado pelo ser: fala-se sobre como um sujeito “é um aprendiz”. O mesmo ocorre nas ordens espirituais ocidentais: em Crowley, “practicus” é uma pessoa, “o practicus”.
Nos casos em que o termo refere-se ao sujeito, a inquirição sobre o significado do termo leva a um problema muito específico, aparte o problema universal da significação: o que constitui, especificamente dentro do processo, o termo “practicus”? Quando alguém fala, “fulano é practicus”, ou alguém declara “sou practicus”, o que isso significa?
O problema aqui não é tanto o de definir o que este termo de fato significa, mas, o fato de que fazer isso é particularmente difícil. Nós não entendemos dificuldade em determinar a especificidade de coisas como cadeiras ou latinhas de cerveja; recortar os objetos ao nosso redor e agrupá-los nos permite determinar facilmente se aquilo ali é uma cadeita, uma latinha de cerveja, um chiclete ou uma serra elétrica. O recorte dos objetos cotidianos em tipos é fácil. Mas objetos como asana ou practicus são difíceis de recortar.
Vamos tomar o caso do termo asana. Uma descrição comum do significado deste termo, no contexto do Ioga de Patanjali, é uma postura firme e confortável. Pelo modo como o termo é usado, temos então ou o exercício de postura firme e confortável, ou, obter uma postura firme e confortável. Certo. Quão firme? Quão confortável? Essas coisas, a firmeza e o conforto, são experiências graduadas, ou seja, que se manifestam em graus. Existem graus de firmeza, graus de conforto. Não importa agora quão subjetivo seja isso: resta que, havendo graus, não se pode falar apenas em “firme” versus “não firme”. Ou, melhor dizendo: falar apenas de “firme” versus “não firme” é insuficiente para compreender se eu, sentado, agorma, estou ou não estou “firme”.
Ocorre que, ao sentar e esperar, o fenômeno da firmeza não se manifesta em duas opções, firme ou não firme. De fato, não existe um conjunto de unidades discretas de firmeza: não há uma sequência contável ou enumerável de unidades de firmeza. A firmeza é um contínuo, e como em todo contínuo, entre duas unidades existem infinitas unidades. É claro que é possível nomear um ponto no contínuo. É possível simplesmente definir a firmeza certa como a firmeza zero: nem mais nem menos. Mas como determinar esta firmeza no real? Dada uma firmeza, é zero? É mais que zero, menos que zero? Quanto mais, quanto menos?
O mesmo acontece com outros termos, como “banimento”. Em um certo processo, define-se isto como “uma clara sensação de limpeza”. A ideia é compreensível, qualquer pessoa que já se sujou sabe a diferença entre a sensação de sujeira e a sensação de limpeza. Mas as sensações não se manifestam em unidades discretas, mas, sim, contínuas. Como determinar qual é a “clara” sensação de limpeza no real?
Na falta de ferramentas para resolver o problema, tende-se a desistir, ou talvez até concluir que o problema é insolúvel. Neste último caso, a conclusão se manifesta por uma aversão à proposição de que a solução existe, ou seja, de que de fato existe o ponto certo do asana, que existe o ponto certo do banimento.
O problema com o contínuo é, em parte, o problema com a séries infinitas. Se existem infinitas medidas de firmeza entre quaisquer duas medidas de firmeza, é difícil conceber que existe uma medida certa de firmeza. De fato, é difícil até mesmo conceber que seja possível alcançar qualquer medida em particular, já que para alcançar uma medida seria preciso percorrer as infinitas medidas intermediárias, e não podemos conceber a enumeração de infinitas unidades em tempo finito: e assim o Aquiles de Zenão nunca alcança a tartaruga.
Porém, esta última intuição é enganosa. De fato, só seria possível enumerar infinitas unidades discretas em tempo finito caso a enumeração tomasse zero tempo, o que é absurdo. Porém, nós não estamos enumerando unidades discretas. O contínuo funciona diferente do discreto. O paradoxo de Zenão confunde o raciocínio mas não produz convicção porque, no real, Aquilos rapidamente ultrapassada tartaruga. A compreensão desse real veio com o cálculo dos infinitesimais. Para nossos propósitos, é suficiente trazer este resultado: que é possível somar uma série infinita de termos decrescentes, ou seja, que existem séries infinitas que convergem.
Por mais que existam infinitas medidas de firmeza entre duas medidas A e B (A menor que B) de firmeza, a série das infinitas medidas de firmeza menores do que B converge em B. Portanto, não é irracional conceber que um fenômeno trata da quantidade real B, que se define pelo alcançar da quantidade real B. Estabelecer que exista racionalidade nisso provê o fundamento para conceber no real a existência e a “alcançabilidade” do ponto certo, ou o marco zero, ou a justa medida.
A dificuldade em determinar, depois expressar, pontos no contínuo do real permanecem. Porém, a existência dessa dificuldade não é suficiente para rejeitar a existência desses pontos. Se esses pontos existem objetivamente (e esta é uma questão a ser respondida no laboratório) então existem objetivamente os asana e os banimentos que se definem por eles. Se essas coisas existem objetivamente, então existe objetivamente uma diferença entre o que coisas que são tais e coisas que não são tais: existe objetivamente uma diferença dentre uma postura que é asana e uma postura que não é. Se existem objetivamente as oito coisas que Patanjali enumera como compondo o Raja Ioga, então, existe objetivamente o Raja Ioga, ou seja, que existe uma diferença objetiva entre uma coisa que é Raja Ioga e uma coisa que não é. O fato de ser difícil determinar o ponto não cancela esse resultado.


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