Tradução: sinonímia

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Neste série, publicarei comentários sobre minha atividade de tradução, que se ocupa principalmente dos Livros Santos da A⸫ A⸫ e de material relacionado, bem como aparatos e ferramentas que desenvolvi para apoiar esta atividade, e talvez até quem sabe traduções propriamente ditas.

Ao longo dos meus estudos dos Livros Santos, enquanto composições textuais, cresceu em mim o entendimento sobre a importância da seleção de termos por parte do autor. Neste artigo, pretendo discutir brevemente este ponto, com algumas observações.

O problema dos sinônimos se apresenta inicialmente ao tradutor quando ele precisa, ele mesmo, selecionar sinônimos. Quando o tradutor se depara com “I would sprinkle you with the divine dew of immortality”, qual será sua escolha para «dew»? Ou quando ele se depara com “although the might have been ten thousandfold the human”, qual será sua escolha para «might»? Ou ainda quando ele se depara com “if ye are sorrowful, or weary, or angry, or discomforted”, qual será sua escolha para «discomforted»? Esses são três casos emblemáticos que, para mim, representam problemas de natureza diferente.

O primeiro caso me parece o mais fácil de pacificar, mesmo que ainda difícil para o tradutor. Ocorre que as frases ao redor estabelecem uma região estreita de significado. O verso “A rooting-out of the weeds: a watering of the flowers” estabelece o início de um discurso marcado contextualmente por «weed» e por «flower». O contexto é reforçado em “O my children, ye are more beautiful than the flowers: ye must no fade in your season”, com a referência ao ciclo de vida das flores nos termos «fade» e «season». Quando alcançamos “I would sprinkle you with the divine dew”, estamos preparados pelo contexto para compreender tanto «sprinkle» quanto «dew», porque, no jardim, onde há erva-daninha e flores sujeitos ao ciclo das estações, há a irrigação e há o orvalho. Enquanto me parece fácil imaginar uma metáfora onde flores são irrigadas com orvalho, eu acho desafiador entender o que seriam as flores irrigadas com néctar, ou algum dos outros usos de «dew».

O segundo caso não me parece um caso difícil de pacificar, exceto por um problema: há poucos sinônimos acessíveis em português. No corpus, ocorrem com frequência significativa os termos «force», «might», «power» e «strength». Enquanto isso, meu vocabulário para o português se limita a «força» e «poder» [1]. Admitindo que a relação entre cognatos é da máxima importância, os pares «force» e «força», «power» e «poder» se formam rapidamente. O que fazer com «might» e «strength»? Aparte mergulhar na linguística em busca de ampliar o próprio vocabulário, no meu estudo, a concordância forma a base para a resposta. Neste caso, a consideração do termo atravessado em todos os seus usos em diferentes contextos, me convenceu ser adquado emparelhar «might» com «power» e «poder», e «strength» com «force» e «força». Isto depende da identificação de algum tipo de unidade atravessando esses usos, problema que pretendo discutir em outro artigo.

O terceiro caso me parece muito difícil e importante; este é o tipo de caso que chamou minha atenção inicialmente para o problema da sinonínima. O corpus contém muitas listagens como essa. Liber Porta Lucis diz “We shall bring you to Absolute Truth, Absolute Light, Absolute Bliss”; também diz “if he be endowed with certain gifts, or if he be fitted by birth, or by wealth, or by intelligence, or by some other manifest sign.” Ou Liber Valluym Abiegni diz “Unto thee shall be granted joy and health and wealth and wisdom (…)”. É difícil estabelecer isso universalmente, mas, para diversas dessas listagens é fácil estabelecer que trata-se de uma listagem deliberadamente fechada nos termos indicados. Este é o caso da seguinte listagem em Liber Magi, “Wherein Sorrow is Joy, and Change is Stability, and Selflessness is Self”, na qual os termos «sorrow», «change» e «selflessness» não apenas compõe uma listagem fechada no verso imediatamente precedente, mas, compõe referência direta a uma listagem fechada de “valores” do budismo na concepção do escriba, que conhecemos por seus variados escritos, como o artigo “Sorrow” do livro “Little Essays towards Truth”.

Agora, se uma listagem como essa for identificada, a sua tradução se torna uma coisa da máxima criticidade: escolher o termo errado tornará inviável ao leitor encontrar o interprante original e portanto alcançar o referente original. Existem diversos termos muitissimo adequados para traduzir «sorrow», mas, nem todos eles compreendeerão dentro de si para o leitor a triplicidade original. Um afastamento inadequado do contexto original tornará muito difícil para a pessoa adivinhar a referência. Me parece muito difícil, por exemplo, que um leitor inteligente faça a ponte entre «arrependimento» e a primeira Nobre Verdade.

Em particular, sendo o caso de termos como «sorrow» figurarem em listagens tão sobrecarregadas de sentido, se torna importante, caso possível, diferenciá-lo de seus sinônimos. Considere, por exemplo, a sinonímia entre «sorrowful» e «sad», adjetivos pares dos substantivos «sorrow» e «sadness». Caso tudo seja traduzido uniformemente por «triste» e «tristeza», o leitor será conduzido a aplicar a natureza de «sorrow» em sua sobrecarga de sentido a versos como Liber Legis, capítulo 2, verso 18: “We are not for the poor and sad” [2].

Entendemos então que, em casos como este, o contexto cujo interpretante deve-se levar em consideração é especificamente a lista, mais do que o entorno textual. A lista, ela mesma, possui algum interpretante que será determinante na seleção da tradução. No caso de Liber Magi, identificamos como interpretante da lista os valores do budismo, que o texto transfigura inovadoramente no verso 16. Mas e o caso de “if ye are sorrowful, or weary, or angry, or discomforted” de Liber Hamus Hermeticus? Que interpretante podemos encontrar para esta listagem, capaz de selecionar dentro da sinonímia de «discomforted» entre «desconsolado», «desencorajado», «desconfortável» e mais um monte de outros? Na falta disso, será preciso optar com base em algum outro princípio; porém, é preciso manter os olhos bem abertos para não causar desnecessariamente uma desgraça dogmática.

Notas

  1. Considerando que «potência» não varia o suficiente de «poder» para aumentar a lista.
  2. Tive a oportunidade de observar um caso concreto desse tipo recentemente, em que o tradutor de Liber Cordis Cincti Serpente selecionou «louco» para «crazy» na expressão “little crazy boy”, e um leitor selecionou para «louco» como interpretante o Louco do Tarô, e construiu uma leitura de que o “little crazy boy” era Pã com base nisso.

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