Três Etapas do Processo

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Thou canst not charm the dolphin with silence, O my prophet!

Liber Cordis Cincti Serpente, cap. II, v. 44

Ao longo da minha aventura pessoal, a noção de que “processo” é uma coisa dividida em três etapas recorre e reincide sempre e toda vez. Eu já não sei mais dizer honestamente se eu penso assim porque é boa ideia ou se eu acho boa ideia por que sempre penso assim.

As três etapas chegaram pra mim inicialmente via kung fu. Na cultura marcial que me foi transmitida, o processo de transmissão dá-se em três etapas, 守 «sau», 破 «po» e 離 «lei», interpretadas como “obedecer”, “romper” e “separar”. Trata-se da ordem do tempo, de uma progressão do tempo em três etapas: deve-se iniciar em “obedecer” com o intuito de atravessar “romper” para alcançar “separar”. Nas minhas palavras, trata-se de aprender no início para criticar no meio e abandonar no final.

Esta noção me marcou profundamente por seu contraste com o típico ordenamento dos sistemas e comunidades esotéricos e suas polêmicas. Neste lugar, os “graus” representam méritos e honrarias e posições hierárquicas que as pessoas desejam obter, ocupar e usufruir, sendo o sujeito ideal aquele que mais “graus” obteve e possui. Enquanto isso, a estrutura sau-po-lei progride em direção ao seu próprio abandono, caracterizando a pessoa ideal como aquela que livrou-se de tudo isso e portanto não tem mais nada.

A projeção no tempo desses elementos, os “graus”, afetou minha percepção, retirando deles o caráter posicional hierárquico e reenfatizando neles o caráter passageiro e progressivo. Frases como “quem segue nunca ultrapassa” foram totalmente perdidas para mim: tornou-se óbvio que se segue antes para ultrapassar depois. Em retrospectiva, a experiência mundana confirma sem dificuldade que motoristas e pedestres alternam entre seguir e ultrapassar cotidianamente.

Somente depois de conviver por bons dez anos com esse conceito pude integrá-lo na cultura do Iluminismo Científico, pela via do livro Kabbalæ Trium Literarum. Originalmente, a trilogia פ ,י ,ג representava para mim apenas um paradoxo misterioso: “silêncio na fala”, “silêncio”, “fala no silêncio”. Somente após integrar por virtude do kung fu a ideia de processo pude fazer uma nova leitura desta trilogia. Minha leitura foi reorientada pela “função das 3 ordens”, pelo sentido de “função” como o que transforma isso naquilo, que faz passar deste para aquele. Por este interpretante, passei a ler sobre a função “(do) silêncio em fala”, a função “(em) silêncio” e a função “(da) fala em silêncio”. Ou seja, calar-se, permanecer calado e então falar.

Pedagogicamente, eu entendo que as duas trilogias harmonizam-se da seguinte maneira: ao iniciar o processo, partindo do nada, é preciso receber a coisa tal e qual ela se apresenta, suspendendo a intromissão do que for pré-existente. É natural que haja muita coisa pré-existente no momento inicial: a pessoa certamente esteva viva por algum tempo e ao longo desse tempo acumulou coisas, pensamentos, isso e aquilo. Me parece que este ponto é absolutamente ofensivo ao esotérico da geração atual, que procura no “esoterismo” e no “ocultismo” variadas formas de libertação daquilo que ele considera o estar restringindo. Afinal, com o intuito de libertar-se daquilo que pretende dizer o que ser e o que fazer, do que adianta viajar para um mundo que pretende dizer o que ser e o que fazer?

Para mim é suficiente observar que esta obediência, esta imitação, este calar-se é a primeira etapa de um processo cujo intuito é gerar a próxima etapa, que eu harmonizo na imagem da análise, da reflexão e da crítica aprofundada. Eu considero de fácil acesso a qualquer adulto a intuição da reflexão gerada pela experiência: as coisas que nós fazemos prolongadamente, repetidamente, naturalmente nos conduzem ao aprofundamento, a analise e a crítica. Somos conduzidos a refletir sobre aquilo que continuamente temos diante de nós. Não há necessidade de forçar, de exigir ou mesmo de convidar esse acontecimento: ele fatalmente acontecerá no devido tempo.

Reproduzir em ensinamentos a imagem desta profundeza, desta análise e desta crítica não pode fazer mais do que convidar as pessoas a, justamente, imitar esta imagem, de modo que em aparência se está operando na segunda etapa mas na realidade se está apenas na primeira etapa. Se isto é intencional, se há intenção de transmitir as formas da arte do pensamento crítico, isso é perfeitamente razoável. Mas não se pode transmitir o próprio pensamento crítico de uma arte dessa maneira. Ele deve emergir espontaneamente, legitimamente, a partir de um processo iniciado antes, um processo cuja virtude é preparar as suas condições, em que a pessoa interage pessoalmente com a própria coisa, em que a pessoa recebe a coisa tal e qual. É portanto a função da primeira etapa gerar as condições da segunda.

Nas artes da informática, tenho praticado uma divisão em três que não me parece a princípio coincidente com a anterior mas que também se deve à minha experiência com o kung fu: preparar, executar e verificar. Nada está realizado somente na preparação. Isto parece óbvio mas ainda assim uma quantidade impressionante de atividades “morre na praia”. A sabedoria popular diz para “não contar com os ovos no cu da galinha” mas o próprio ovo recém saído da galinha ainda não é suficiente: é preciso verificar seu conteúdo. Após a ação, deve-se verificar o resultado, assegurá-lo. Na informática, o júnior diz que o programa está pronto quando compila na sua própria máquina enquanto o sênior diz que o programa está pronto quando foi executado e aprovado por outra pessoa em outro lugar.

Este processo de preparar, realizar e confirmar está lentamente integrando-se e se espalhando na minha ideia para vários ambientes. Considere por exemplo a prática do “diário” no processo do Iluminismo Científico: trata-se entre outras coisas de um dispositivo de verificação que permite, após o acontecimento da coisa, confirmá-la por sua narrativa. Outra pessoa competente na matéria reconhecerá as marcas da legitimidade do acontecimento encerradas na sua narrativa. Assim também diz o ditado popular “não adianta fazer ioga e não cumprimentar o porteiro”: a intenção deve-se manifestar em pensamento, palavra e ato. A marca fundamental e definitiva da arte de fazer bolos são os bolos feitos e verificados pelo comer.

Dito de outro modo, de nada interessa, nenhuma relevância tem uma espiritualidade ou sabedoria que não culmina em sua própria transcendência e reintegração às coisas. O valor de submeter-se ao processo é libertar-se do processo de um modo que o depois é proveitosamente diferente do antes. Um homem sábio pode ser muito difícil de distinguir de um idiota ao ser observado por um curto espaço de tempo, porém, dado tempo suficiente, deve-se notar a diferença. Na ausência dessa diferença, trata-se provavelmente de um idiota. O Tolo do final deve ser de uma Tolice diferente da tolice do tolo do início.

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