Sobre a Imagem da Força

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Este texto foi publicado originalmente no grupo “Thelema Brasil” do Facebook durante um pequeno drama iniciado por uma pessoa com sobrenome “Himler”. O texto foi escrito e publicado poucos minutos após esta pessoa ser posta pra fora do grupo, pela segunda vez, por razão de agressões estúpidas contra uma colega.

Situações como essa, em que se torna necessário o uso da “força”, sempre fazem meu pensamento retornar para um determinado assunto. Ele tem por núcleo o confronto entre dois personagens antitéticos, a pessoa tranquila & fraquinha vs. a pessoa furiosa & fortona. Esses dois personagens coexistem no imaginário sem nenhum tipo de intermediário. Ou você é tranquilo e consequentemente é um fracote, ou então você é um fortão e consequentemente uma pessoa furiosa.

Na minha experiência governando diferentes tipos de ambiente, esses dois personagens aparecem no vazio que eles deixam de preencher.

Por um lado, toda paciência e tranquilidade diante de comportamentos problemáticos é caracterizada como fraqueza moral e trás consigo o prenúncio do fim do mundo: se deixar correr solto, vai ser o apocalipse! Por alguma razão, as pessoas consideram auto-evidente que qualquer permissividade com a falha ética ou moral implica um movimento irreversível em direção ao desastre absoluto. Isto provavelmente é uma marca essencial do pensamento cristão ocidental: o início é pureza e o tempo é degeneração.

Por outro lado, todo ato de violência acompanhado de uma narrativa justificatória é caracterizado como força humana e trás consigo a promessa da revolução que finalmente fundará o verdadeiro Paraíso na Terra. Contanto que se esteja agredindo o Verdadeiro Inimigo, conforme as regras da Verdadeira Justiça, nada mais interessa: estamos diante do iminente retorno ao estado de pureza no qual todos os indivíduos ou terão sofrido uma morte dolorosa e violenta ou estarão vivos e para todo o sempre aquecidos pelo manto da Razão Total. De modo que todo mundo corre de um lado para o outro assegurando seus colegas de que “se eu ver um nazista na rua vou meter porrada”.

É claro que nós vemos, sim, no mundo, as consequências nefastas de ideologias de “dar a outra face”. As pessoas que procuram a comunidade dos thelemitas provavelmente estão tentando migrar, dentro do seu grande framework mental, lá dentro da sua intimidade, da primeira posição para a segunda.

Minha posição é esta. Abandonar a tranquilidade e a humanidade não é aceitável, ponto. O valor da força é irrelevante: sem tranquilidade e humanidade, não existe admirável força, existe somente detestável truculência. As pessoas que se pretendem cobertas com o manto da Razão Total para justificar Tolerância Zero como um princípio de governo e portanto eliminar seus Verdadeiros Inimigos estão num avançado estágio de abandono da sua humanidade.

Tolerância Zero, justificada pela Razão Total e alimentada por um arcabouço conceitual onde “força” significa “uma forte emoção”, inviabiliza a educação. Não existe, não pode existir e não faz nenhum sentido que exista educação dentro de um projeto cuja natureza seja a eliminação violenta da pessoa errada. Este projeto só pode ter como resultado uma condição de “pureza” onde restam vivas apenas as pessoas certas que obviamente não precisam que nada lhes seja ensinado.
É condição fundamental da educação a aceitação do estado de erro como o tempo inicial do processo. É condição fundemental do processo de educação o investimento ao longo do tempo em ações com o efeito de trazer do erro para o acerto. Nesse ambiente, existem limites exteriores que precisam ser protegidos, além dos quais, justamente, a educação se torna impossível. Existem comportamentos que destróem no sujeito humano a condição de aprender. E estes comportamentos, na minha opinião, eles sim, devem ser rápida e sumariamente exterminados.

Para isso, é preciso que as pessoas construam um novo personagem: um personagem transversal que é ao mesmo tempo tranquilo e potente. Tranquilo para educar e potente para eliminar aquilo que impede a educação. Esse personagem, somente ele, será capaz de aceitar o tempo presente e lidar com ele. O fraco nada é capaz de fazer e o furioso não pode mais do que alimentar suas próprias fantasias.

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