Tradução: «anger», «fury», «rage», «wrath»

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Neste série, publicarei comentários sobre minha atividade de tradução, que se ocupa principalmente dos Livros Santos da A⸫ A⸫ e de material relacionado, bem como aparatos e ferramentas que desenvolvi para apoiar esta atividade, e talvez até quem sabe traduções propriamente ditas.

Esta será uma brevíssima exposição de método aplicado ao caso desses quatro termos, que significam quase mas não exatamente a mesma coisa, e como proteger essa diferença.

Estes termos não aparecem lado a lado. Eles ocorrem todos com alguma frequência, sendo «anger», «angry» o menos frequente. Nosso objetivo é evitar usar o mesmo termo em cada caso.

Existem muitas opções em português; nosso problema não é escassez. Poderíamos distribuir aleatoriamente e assim obter o efeito desejado, traduzir diferentes por diferentes. Como aperfeiçoar?

Nosso primeiro mecanismo de aperfeiçoamento é a etimologia. Eu considero como um princípio (que é devido justificar mas não agora) que neste corpus significados antigos tem dominância.

Avaliando então as raízes etimológicas, encontramos uma relação de descendência entre «fury» e o francês «furia», do latim «furia», étimos e cognatos do português «fúria». É um preciosismo: competência média já permitiria fazer essa seleção.

Encontramos uma relação menos óbvia em «rage», descendente do francês «rage», do latim «rabia», étimos e cognatos do português «raiva». A doença chamada «raiva» em português chama-se «rabies» em inglês. O uso coloquial é compatível. Isto me pareceu um real ganho.

Tendo esgotado o recurso etimológico, tornou-se necessário procurar outro. Neste caso, nosso segundo mecanismo é avaliar o topo da lista de acepções do Oxford Dictionary of English. Este dicionário inclui todas as acepções historicamente atestadas do termo, listadas mais ou menos em ordem de primordialidade; as acepções que ocorrem mais antigamente primeiro e as acepções que ocorrem mais recentemente no final.

Encontramos logo no início da listagem de acepções para «hate» sua posição como o termo oposto de «love». Nos parece que existe esta mesma relação em português entre os termos «ódio» e «amor». Isto me parece um bom ganho.

Nenhum desses dois recursos teve tanto impacto no estudo de «anger»: não existe relação etimológica com idiomas latinos e as acepções primordiais não entregam nenhum grande segredo. Notamos, porém, que há relação etimológica com antepassados não latinos que o Oxford Dictionary of English traduz como “trouble”, “affliction”; e entre as acepções primordiais estão as ideias de “sorrow”, “suffering”, “trouble”, “affliction” entre outras. Esta é, porém, uma acepção obsoleta, com exemplo mais antigo dado pelo dicionário no século 16. Em vigor temos uma acepção no campo previsto, “wrath”, “rage” e “fury”. A elaboração desta acepção diz: “A strong feeling of displeasure, dissatisfaction, or annoyance, generally combined with antagonism or hostility towards a particular cause or object”.

Retornando ao texto, percebemos que ele ocorre dentro de uma listagem em liber Hamus Hermeticus, verso 23: “Only if ye are sorrowful, or weary, or angry, or discomforted (…)” No atravessamento entre os termos «sorrowful», «weary», «angry» e «discomforted», encontramos alguns interpretantes capazes de atravessá-los todos; entre eles, um elemento de imobilidade, de inação, de desistência causada pela desmotivação, pela falta de energia, de impulso. Agora, os diversos termos no amplo campo semântico da raiva geralmente tem uma carga de energia envolvida; uma pessoa furiosa está movendo-se violentamente, quebrando tudo, gritando e esperneando, ou coisa parecida. Mas a mim, pessoalmente, parece que existe ao menos um termo capaz de representar uma pessoa que está imbuída de uma energia de rejeição porém está imobilizada: existem usos de «irritação» que tratam de uma pessoa de braços cruzados, puta da vida, emburrada, que se recusa a fazer qualquer coisa. O uso coloquial é compátivel: podemos dizer «irritado» por «angry». Selecionamos portanto este par.

O procedimento acima é um exemplo do modo como procedemos lentamente em direção à construção de um dicionário restrito ao corpus. Ele é ainda um procedimento frágil; para obter força, seria preciso retornar ao texto, procurar todas as ocorrências do termo, e substituí-las uma por uma, de modo a avaliar se o atravessamento realmente reduz todos os casos à unidade ou não. Isto é imperativo para evitar o erro de perder justamente as grandes diferenças de sentido que existem no próprio original, para termos que tem acepções originais significativamente diferentes. Em um próximo texto desta série, vamos expor um caso em que um mesmo original é na verdade dois ou mais.

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