Formas da Transmissão

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Trabalho apresentado no colóquio Pestilência em Foco em junho de 2018.

Resumo

“(…) the processes of globalization and social transformation, alongside the conditions they create for renewed dialogue among communities, also give rise, as does the phenomenon of intolerance, to grave threats of deterioration, disappearance and destruction of the intangible cultural heritage, in particular owing to a lack of resources for safeguarding such heritage”

UNESCO, “Convention for the Safeguarding of the Intangible Cultural Heritage”, 2003

Neste artigo, exploramos o caso da transmissão da tradição rosacruciana, com ênfase na situação da A⸫ A⸫ no início do século XXI. Após o falecimento do seu segundo líder, na ausência de um terceiro, o corpo de membros se fragmentou em “linhagens”. A legitimidade de tais fragmentos é objeto de frequente disputa dentro da comunidade. Exploramos os conflitos e as questões envolvidas.

Formação & Estrutura

“31. Also He conferred upon D.D.S., O.M., and another, the Authority of the Triad, who in turn have delegated it unto others, and they yet again, so that the Body of Initiates may be perfect, even from the Crown unto the Kingdom and beyond.”

Liber Causae

Em 1614, em Kassel, a publicação do panfleto anônimo “Fama Fraternitatis Roseae Crucis oder Die Bruderschaft des Ordens der Rosenkreuzer” inaugura o fenômeno “rosacruz”. Cópias do manuscrito sobrevivem.

O simbolismo de uma sociedade de eleitos, vivendo secretamente entre os homens uma vida consagrada fora da instituição religiosa em plena crise, portadora de um legado ancestral e detentora de poder divino, dialogou com os conceitos e sentimentos de prisca theologia, philosophia perennis e o milenialismo que vigorava e perdura no coração da cultura europeia.

Sabemos que o manuscrito do “Fama” já estava em circulação tão cedo quanto 1610. O volume dentro do qual o “Fama” foi publicado incluiu, entre outros, uma resposta ao próprio “Fama”, evidenciando a circulação prévia. Pouco tempo depois surgiriam novas respostas, tentativas de contato, supostos pronunciamentos de membros, e ordens por toda Europa incorporando o simbolismo da cruz roséa e seus ideais.

Entre as ordens rosacruzes, vamos nos debruçar sobre uma linha específica: as ordens da “cruz dourada”, posteriormente, da “aurora dourada”.

Em 1710, é publicado em Breslau o “Die wahrhaffte und volkommene Bereitung des philosophischen Steins der Brüderschaft aus dem Orden des Gülden und Rosen-Creutzes”. Cópias da publicação sobrevivem.

Nesta obra, o autor, Sincerus Renatus, descreve e dá estatuto de uma “ordem da cruz dourada e rósea”. Com uma estrutura hierárquica vertical governada por um Imperator, a ordem admitia membros mediante cerimônia de iniciação a um processo de revelação progressiva, em nove “graus”, do segredo da alquimia.

Em um documento datado 1761, temos evidência de uma “Loja da Rosa Negra” da “Orden des Gold- und Rosenkreuzer” em Praga. É incerta qual é a relação entre esta ordem e aquela descrita por Renatus. Muitos dos seus documentos sobrevivem, bem como registros de e sobre seus membros.

A ordem admitia a um processo de revelação progressiva, em nove “graus”, do segredo da alquimia. Seus membros poderiam estudar sozinhos, sendo orientados por correspondência, ou participar de grupos de até nove pessoas, governados por um diretor distrital, responsável perante um diretor geral, abaixo de um diretor chefe.

Em 1867, no Reino Unido, ocorre a fundação da “Societas Rosicruciana in Anglia”, uma Ordem cristã maçônica com estrutura similar à Gold- und Rosenkreuzer. Sua estrutura herárquica distribui os nove “graus” em três ordens. Os quatro primeiros graus reúnem-se em “colégios” da primeira ordem. Os três seguintes reúnem-se em “províncias” da segunda ordem, com autoridade sobre os “colégios” dentro da sua jurisdição. Os dois últimos reúnem-se no “alto conselho” com autoridade sobre toda a Ordem.

Em 1888, William W. Westcott, Samuel L. M. Mathers e William R. Woodman, membros da SRIA., alegando autoridade recebida de “chefes secretos”, fundam o primeiro templo da “Hermetic Order of the Golden Dawn”, uma ordem mista para-maçônica correspondente, grosso modo, à primeira ordem da SRIA. Anos depois, uma segunda ordem é fundada, a “Roseae Rubeae et Aurea Crucis”, correspondendo, grosso modo, à segunda ordem da SRIA. Os “chefes secretos” seriam membros de uma misteriosa terceira ordem.

Um templo da HOGD é governado por três oficiais: o Hierofante (de ἱεροφάντης), o Hegemon (de ἡγεμών) e o Hiereus (de ῐ̔ᾰρεύς). No diagrama do Salão dos Neófitos, vemos os três oficiais dispostos na vertical central.

Todos os templos da primeira ordem estão sob a autoridade da segunda ordem e seus três chefes: o Praemonstrātor, o Imperātor e o Cancellārius. Estes formam, mais uma vez, uma estrutura hierárquica vertical.

A primeira e a segunda ordem são governadas, por sua vez, pelos “chefes secretos” da terceira ordem.

The Veil of the Sanctuary
The Paths and the Grades

Em 1907, dois membros da segunda ordem, Aleister Crowley e  George Cecil Jones, alegando autoridade recebida diretamente da terceira ordem, fundam a A⸫ A⸫ como uma reformulação ou reforma da Ordem baseada em conhecimento fresco publicado pelo “chefe secreto” frater V.V.V.V.V..

A nova Ordem organiza-se, conforme a tradição “golden dawn”, em uma hierarquia vertical de três ordens, a G⸫ D⸫, a R⸫ C⸫ e a S⸫ S⸫. A autoridade hierárquica das três ordens está implícita na tradição: nenhum estatuto a afirma. A natureza de cada ordem está descrita em textos como “Liber Tau vel Kabbalae Trium Literarum”, “One Star in Sight”, “Liber Graduum Montis Abiegni” e outros.

No governo da nova Ordem reencontramos os três oficiais, Praemonstrātor, Imperātor e Cancellārius. A função de cada oficial está na tradição implícita: nenhum estatuto a afirma. Sua existência está evidenciada no imprimatur das publicações oficiais da Ordem.

A nova Ordem não se organiza em Templos, portanto, não reencontramos a estrutura hierárquica Hierofante, Hegemon, Hiereus na primeira ordem. Além disso, apesar de haverem oficiais governantes, não recorre o conceito de região ou jurisdição.

A⸫ A⸫, conforme sua longa linhagem “rosacruz” e “golden dawn”, manifesta uma organização hierárquica vertical admitindo membros a um processo de revelação progressiva do segredo.

Graduum Montis Abiegni

Rompimento & Legitimidade

12. Scandal arose and with it schism.

Liber Causae

A história da “golden dawn” é uma história de fraturas.

Nada sabemos sobre a Orden des Gülden und Rosen-Creutzes. Possivelmente, nunca existiu tal “orden” fora da imaginação de frater Sincerus Renatus, autor do manifesto citado anteriormente.

A Orden des Gold- und Rosenkreuzer sabemos que existiu na segunda metade do século XVIII. Seu declínio deveu-se inclusive pela decepção dos membros com a não concretização dos poderes miraculosos prometidos e pela morte de seu patrono Frederick William II.

A Hermetic Order of the Golden Dawn, fundada por Woodman, Westcott e Mathers sobre a autoridade de manuscritos cifrados e cartas de “adeptos alemães”, duraria apenas doze anos. A tríade de oficiais fraturaria em 1891 com o falecimento de Woodman, cujo posto vago não foi novamente ocupado. Pouco depois, intrigas internas afastariam Wescott, garantindo a Mathers o controle total. A tríade de oficiais que governam a Ordem não esteve completa na maior parte do seu tempo de vida.

Os membros da segunda ordem não suportaram Mathers por muito tempo, e, após diversas disputas, em 1900, um profundo cisma ocorre. Deste cisma, nos anos seguintes, diversas ordens emergem, como a Alpha et Omega, a Stella Matutina e a A⸫ A⸫.

A legitimação da A⸫ A⸫ emerge de dentro da própria estrutura da antiga Ordem: autoridade conferida pelos “chefes secretos”. A nova Ordem funda-se pela autoridade de frater V.V.V.V.V., Magister Templi da terceira ordem. Ele, por sua vez, confere autoridade para George Cecil Jones, frater D.D.S., praemonstrātor, e Aleister Crowley, frater. O.M., imperātor, ambos Adeptus Exemptus da segunda ordem.

O principal registro da composição da tríade está no imprimatur das publicações oficiais da Ordem.

Em 1909, no Equinox, o imprimatur de “An Account of A⸫ A⸫” diz:

No mesmo ano, no THELEMA, o imprimatur de “Liber Causae” diz:

Em 1911, no Equinox, o imprimatur de “Liber HHH” diz apenas:

Em 1912, no Book Four, parte 1, encontramos este imprimatur:

Em 1919, no Equinox, “Liber Causae” é republicado com novo imprimatur:

Em 1919, vemos uma mudança significativa na hierarquia da Ordem. Todos os graus da terceira ordem são preenchidos, e novos nomes aparecem: frater 666, To Mega Therion, Aleister Crowley, e frater 777, Charles Stansfeld Jones. Infelizmente, Jones rompe com Crowley pouco tempo depois.

Na data do falecimento de Aleister Crowley, em 1947, poucos membros de significativa senioridade restariam em atividade. Membros notáveis como soror Laylah, frater Progradior e frater Semper Peratus, já haviam falecido ou, como frater Achad, se distanciado. O papel de senior e governante foi legado a frater Saturnus, Karl Germer, residente na América do Norte. O relacionamento de Germer com os membros norte-americanos da Ordo Templi Orientis é notório e temos acessos a diversas coletâneas de cartas.

Com o falecimento de Germer em 1962, nenhum membro de significativa senioridade obteve o amplo reconhecimento necessário para sustentar um governo central.

Observamos neste momento mais uma fratura na longa história da “golden dawn”: o fim da hierarquia central governante da A⸫ A⸫. Porém, uma singular inovação desta Ordem garantiria a sua sobrevivência, apesar da controvérsia resultante. Examinaremos esta inovação a seguir.

Formas da Transmissão

20. Thereupon these two adepts conferred together, saying: May it not be written that the tribulations shall be shortened? Wherefore they resolved to establish a new Order which should be free from the errors and deceits of the former one.

Liber Causae

Na tradição esotérica europeia, as ordens esotéricas são personagens marcantes. Sobre a Fraternitatis Roseae Crucis e a Orden des Gülden und Rosen-Creutzes nada sabemos além do que nos diz seu manifesto. Sobre a Orden des Gold- und Rosenkreuzer, sabemos que ela foi marcante na história do aufklarung alemão. A Hermetic Order of the Golden Dawn permanece presente na cultura europeia/ocidental até hoje.

Tais ordens são modeladas nas ordens religiosas e nas guildas de artesãos, típicos da sociedade europeia medieval.

As características de hierarquia estritamente vertical, obediência irrestrita ao superior, a existência de “mestres” diretores de consciência em um processo de evolução espiritual progressiva, entre outras, são todas cacterísticas típicas da ordem religiosa cristã.

A história das ordens religiosas no cristianismo europeu tem como importante marco inicial a fundação de diversos monastérios por Benedito de Nursia. Sua Regula Benedicti foi tomada como modelo para as regras monásticas subsequentes, estabelecendo diversas regras para a vida, entre outras, a existência de um superior hierárquico diretor de consciência, irrestrita obediência e um caráter de crescimento espiritual progressivo para os membros. Compare com o estatuto Orden des Gülden und Rosen-Creutzes, que regula coisas como o estado civil dos membros, ou a maneira como eles devem saudar-se uns aos outros, ou o procedimento adequado a seguir quando chega-se em uma nova cidade.

Uma das principais características da ordem religiosa é a assumção de um juramento solene com relação à regula da ordem. Tais juramentos eram indissolúveis. Um caso típico seria o juramento de castidade, cujo vigor invalidaria o casamento sem exceção ou possibilidade de recurso, ou um juramento de pobreza, que invalidaria testamentos ou herança. O voto de santa obediência é um elemento comum entre as ordens religiosas e esotéricas; encontramos na primeira iniciação da Hermetic Order of the Golden Dawn um voto de santa obediênca aos “chefes secretos”. 

O próprio conceito de “ordem”, no catolicismo, seria restrito à organização cujo pertencimento seria mediado por um voto solene; organizações com voto simples, portanto solúvel, seriam denominadas “congregação”. Em 1917, o Código João-Paulino manteria essa distinção, porém, aliviando o conceito de “indissolubilidade” e tornando a distinção menos precisa. Ordens esotéricas, não tendo nenhuma força política, jamais puderam impor efeito jurídico aos seus membros na sociedade como um todo; observamos, por exemplo, que a penalidade pelo não cumprimento de votos na Hermetic Order of the Golden Dawn são “sérias consequências” de uma “corrente punitiva”.

Um aspecto da ordem religiosa, a fraternidade entre os membros, é compartilhado por outro instituto da vida medieval, as fraternidades de mútuo auxílio. Dessas, vamos analisar brevemente as guildas e lodges de artesãos, que veio a gerar um importante instituto da tradição esotérica europeia, a maçonaria.

A história das guildas de artesãos é longa. Sabemos que, em Roma, comerciantes e artesãos se reuniam em instituições chamadas collegium com o propósito de apoiar-se mutuamente. Na europa medieval, tal associação entre comerciantes ou artesãos era comum.

O caso particular das guildas de artesãos, um dos benefícios proporcionados aos membros era o rigoroso controle na transmissão dos segredos da arte praticada, gerando o que hoje chamaríamos de “reserva de mercado” aos seus membros. Esta característica encontramos facilmente em toda sorte de ordem esotérica; a “golden dawn” histórica professava transmitir justamente o segredo da grande obra alquímica; ordens como a Ordo Templi Orientis alegaram possuir um segredo exclusivo que nenhuma outra ordem possui.

Tais guildas também obteriam juramentos de seus membros; votos de mútuo auxílio, proteção mútua contra inimigos e a não revelação do segredo da arte são elementos típicos. Tipicamente, mestres artesãos se reuniriam para formar uma guilda, obtendo controle sobre a produção e algum poder na economia local.

Uma característica peculiar do sistema de guildas é o modo de transmissão da arte. O mestre artesão tomaria aprendizes, que forneceriam trabalho em troca do aprendizado, ou seja, a recepção do segredo da arte. O aprendiz evoluiria através desse processo à condição de “praticante pleno” e eventualmente a “mestre”, quando obteria privilégios plenos dentro da guilda e a condição de aceitar seus próprios aprendizes. Estes três estágios estão perfeitamente refletidos na estrutura de graus da maçonaria.

Este processo, o “aprendizado”, é particularmente importante para a nossa análise. Ele é uma distinção crucial entre as naturezas da ordem e a guilda. A ordem possui um líder espiritual, um “abade”, responsável e superior por todos os membros. Espera-se dos membros que eles obedeçam a regra monástica e permaneçam até o fim da sua vida nesta condição. A guilda forma-se por um colegiado de mestres. Tais mestres assumem aprendizes, a quem transmitem o segredo da arte. Espera-se que os aprendizes apliquem-se no aprendizado e progridam pela plenitude da profissão até tornarem-se eles mesmos mestres.

Entendemos que as ordens esotéricas europeias compartilham, em maior ou menor grau, das naturezas da ordem religiosa e da guilda de artesãos. Em particular, ordens na tradição “golden dawn” assemelham-se a ordens religiosas na existência de “chefes” responsáveis por todos os membros, que, por sua vez, lhes devem obediência. Espera-se que a maioria dos membros vivam sua vida obedecendo a regra da ordem. 

A⸫ A⸫, porém, é um caso a parte.

É claro que, como vimos anteriormente, A⸫ A⸫ é uma típica organização hierárquica vertical na tradição “golden dawn”, governada por um Imperātor, sob instrução de um Praemonstrātor, com o auxílio de um Cancellārius. Esta é, porém, metade da história. Os membros não organizam-se em templos onde trabalham sob um líder para dirigir-lhes coletivamente a consciência. De fato, os membros não organizam-se coletivamente de forma alguma. A estrutura da Ordem tem a forma de elos instrutor-instruído, ou senior-junior — ou mestre-aprendiz.

Esta característica não é incidental. 

Em um pronunciamento oficial publicado no “The Equinox”, o Cancellārius da A⸫ A⸫ afirma: “The Chancellor of the A⸫ A⸫ views without satisfaction the practice of Probationers working together. A Probationer should work with his Neophyte, or alone. Breach of this rule may prove a bar to advancement.”

Em um comentário ao Livro da Lei, Aleister Crowley escreve: “Our system of initiation is to be triune. For the outer, tests of labour, pain, etc. For the inner, intellectual tests. For the elect of the A⸫ A⸫, spiritual tests. Further, the Order is not to hold lodges, but to have a chain-system.”

No “One Star in Sight”, frater O.M. escreve: “There is also a rule that the Members of the A⸫ A⸫ shall not know each other officially, save only each Member his superior who introduced him and his inferior whom he has himself introduced.”

Isto se confirma na prática. Encontramos na história da A⸫ A⸫ uma história de relações iniciador-iniciado. Aleister Crowley iniciou diversas pessoas, entre elas algumas que alcançaram alto grau na ordem progredindo através do sistema.

Em 1947, quando Crowley morre, sabemos que diversas pessoas devidamente iniciadas na A⸫ A⸫ permaneceram ativas. Com a morte de Germer em 1962 e o fim do governo central, essas pessoas permanecem em atividade, iniciando outras.

É possível traçar uma árvore de relações iniciador-iniciado a partir de Crowley. Uma lista não exaustiva de membros da primeira geração, vivos em 1947, inclui Israel Regardie, Jane Wolfe, Karl Germer e Grady McMurtry. Desses quatro conhecemos uma segunda geração: Israel Regardie iniciou Gerald Suster; Jane Wolfe iniciou Phillys Seckler; Karl Germer iniciou Marcelo Motta; Grady McMurtry iniciou Gerald Cornelius. Uma pesquisa adicional séria deveria investigar, no mínimo, a possível descendência de Frank Bennett na Austrália e de James Windram na África do Sul. Este processo continua na terceira geração, sobre a qual conhecemos vários exemplos, como frater Alion descendente de Gerald Suster, David Shoemaker descendente de Phillys Seckler e Euclydes Lacerda descendente de Marcelo Motta. Estas linhas sucessórias, ou “linhagens”, prosseguem em atividade até hoje.

Um processo de transmissão da arte de iniciador para iniciado em relações duais se afasta da relação de direção coletiva da consciência, típica da ordem religiosa, e se assemelha à relação de aprendizado estabelecida entre mestre e aprendiz no contexto das guildas de artesãos.

Encontramos formas de transmissão similares em outros lugares. A transmissão do kung fu, por exemplo, também se dá por uma relação mestre-aprendiz, de modo que as tradições mais antigas de kung fu registram árvores genealógicas com raízes profundas.

Acreditamos que este fato deve ser levado em consideração no debate sobre legitimidade que recorre dentro dessa comunidade em função do desmonte do governo central em 1962.

Não obstante a notável existência dos três oficiais governantes da ordem, é preciso reconhecer a forma genealógica de transmissão do sistema. Essas duas características não são mutuamente excludentes. Não há estatuto que exija de um membro nada mais que trabalhar dentro dos parâmetros estabelecidos pelo sistema com o objetivo de acessar progressivamente o segredo que ele encerra. De fato, conforme a tradição recente, a autoridade real provém da terceira ordem, com a qual qualquer membro pode fazer contato independente. Sua própria fundação está pautada neste contato independente realizado durante um cisma.

A preservação de um legado está primariamente na relação humana que o transmite. Nenhum livro o encerra; o registro escrito pode no máximo fazer referência a ele. O reconhecimento deste fato fundamenta todos os modernos programas de proteção ao patrimônio intangível da humanidade. Acreditamos que o reconhecimento da natureza geneálogica da transmissão do sistema da A⸫ A⸫ é essencial para a preservação desse legado.

Referências

Aleister Crowley, “Liber Graduum Montis Abiegni”, in “ΘΕΛΗΜΑ”, volume I, facsimile digital produzido por KeepSilence.org

Aleister Crowley, “Liber Graduum Montis Abiegni”, in “The Equinox”, volume I, número 3, facsimile digital produzido por KeepSilence.org

Aleister Crowley, “One Star in Sight”, in, “Book Four”, parte III, apêndice 2, ***

Aleister Crowley, “Pronouncement of the Chancellor of the A⸫ A⸫”, in, “The Equinox”, volume I, número 8, facsimile digital produzido por KeepSilence.org

Aleister Crowley, “The Temple of Solomon the King”, parte 7, in “The Equinox”, volume I, número 7, facsimile digital produzido por KeepSilence.org

Aleister Crowley, Grady McMurtry (ed.), “The Holy Books of Thelema”, Samuel Weiser, 1983, quarta impressão, 1996, ISBN 0877286868

Charles Fuller, “The Temple of Solomon the King”, parte 2, in “The Equinox”, volume I, número 2, facsimile digital produzido por KeepSilence.org

Christopher McIntosh (trans.), Donate McIntosh (ed.), “Fama Fraternitatis”, segunda edição revisada, CreateSpace, Junho de 2014, ISBN 978-1499555486

Christopher McIntosh, “The Rose Cross and the Age of Reason”, SUNY Press, Janeiro de 2011, ISBN 978-1438435596

Christopher McIntosh, “The Rosicrucians”, terceira edição revisada, Weiser, Janeiro de 1998, ISBN 978-0877289203

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Mike Crowson, Thomas Linacre College, “The  Seven Steps of Wisdom”, publicado na web, arquivado pelo Internet Archive em 10 de Abril de 2018, https://web.archive.org/web/20180410014843/http://www.themasonictrowel.com/Articles/General/other_files/the_seven_steps_of_wisdom_sria.htm

R. A. Gilbert, “From Cipher to Enigma: The Role of William Wynn Westcott in the Creation of the Hermetic Order of the Golden Dawn”, in “Secrets of the Golden Dawn Cypher Manuscript” ***

Sincerus Renatus, R. A. Gilbert (ed), “The True and Perfect Preparation of the Philosopher’s Stone, by the Brotherhood of the Order of the Golden and Rosy Cross; Wherein the Materia for this Mystery is named by its name, also the Preparation is shown from the Beginning to the End, with all Manipulations”, Teitan Press, ISBN 9780933429475

Wouter Hanegraaf, “Esotericism and the Academy”, Cambridge University Press, 2013, ISBN 9781107680975

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