Como ficar sentado por uma hora vai me tornar uma pessoa sábia?

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Crowley to Jones, “An XIII ☉ in ♈” (ca. March 1917), CSJ Papers: “You can pass a man to Neophyte on clear evidence of good will, hard work; attainment of any kind is not necessary at all”.

Martin Starr, “Unknown god”, p. 64

Vous lever tous les jours à la même heure et de bonne heure; vous laver en toute saison avant le jour à une fontaine ne porter jamais de vêtements sales, et pour cela les nettoyer vous-même s’il le faut; vous exercer aux privations volontaires, pour mieux supporter les involontaires; puis imposer silence à tout désir qui n’est pas celui de l’accomplissement du grand-œuvre. Quoi en me lavant tous les jours à une fontaine, je ferai de l’or? Vous travaillerez pour en faire. C’est une moquerie. Non, c’est un arcane.

Eliphas Levi, “Dogme et Rituel de la Haute Magie”, “Rituel”, ch. 1

Certa vez fui convidado a participar de um podcast sobre Magia e Artes Marciais. Meu anfitrião abriu com a pergunta básica em uma discussão comparativa; tempos depois, em um churrasco, ele me revelou a saia justa que eu gerei com a minha resposta: o que tem a ver Magia com Arte Marcial? Ora, Magia não tem nada a ver com Arte Marcial.

Mas eu concedo que ambos a Magia e a Arte Marcial partilham algo em comum: sua relação com o Iluminismo Científico e o Kung Fu, respectivamente, e a dificuldade em se estabelecer o que uma coisa tem com a outra.

Refraseando, nos termos da A⸫ A⸫, nós temos por um lado as qualidades sublimes do Iniciado, descritas em palavras sutis, abstratas e maravilhosas, e por outro lado as tarefas vulgares do sistema, como por exemplo sentar em uma cadeira e ficar sentado por uma hora.

O que tem uma coisa a ver com a outra?

Este problema existe assim, de forma imediata, para aquele que se meteu com o sistema individualmente, mas ele existe de uma forma muito pior para aquele que envelheceu ali dentro e lhe foi empurrada a responsabilidade de orientar as outras pessoas. [1]

Quando o objetivo do sistema é produzir abstrações como “espiritualidade”, e a conexão entre isto e os fazeres mundanos como sentar aqui relaxado e ficar brisando em várias imaginações, o que significa a orientação exatamente? É imperativo passar de grau aqueles que passaram de grau e não passar de grau aqueles que não passaram de grau, é intuitivo para todas as pessoas; mas qual é a diferença?

Na Arte Marcial, existe um alicerce para a auto-avaliação e a alter-avaliação, na medida em que a Arte Marcial está firmemente alicerçada nos fazeres vulgares que correspondem: ao dar porrada, é preciso que a porrada seja uma porrada, e não uma outra coisa qualquer. Aparte quaisquer outras considerações, se a pessoa dá uma porrada e por consequência disso tropeça e cai no chão, existe uma forte intuição de que essa pessoa ainda não está pronta, enquanto que no caso de uma pessoa que ao dar uma porrada permanece firme no chão, eis um indício de que a porrada foi bem dada.

O problema, porém, não é decidir o que é uma porrada bem dada, mas qual é a relação entre adquirir a competência de uma porrada bem dada e adquirir aquelas outras qualidades sublimes que vou resumir confucianamente no termo Humanidade.

Existe, ao menos, esta intuição, a de que a experiência de vida, de um modo geral, ensina as pessoas a viver. Existe também o exemplo de pessoas que são reconhecidas como sábias e, ao que tudo indica, chegaram lá pelo aperfeiçoamento de uma arte específica, como o caso do grande investidor norte americano apelidado de “Sábio de Omaha”.

É minha opinião que uma pessoa suficientemente vivida conhecerá uma ou duas pessoas na sua esfera privada que ela considera sábias, e também é minha opinião que, parando-se para pensar no assunto, chegar-se-á à conclusão que essas pessoas não chegaram nessa condição por uma via especificamente denominada “sabedoria”, mas sim que elas chegaram lá por uma outra via, como por exemplo o sábio Designer, ou o sábio Analista de Sistemas.

Tradicionalmente, ao menos na minha experiência, o termo “sistema”, do cantonês “kuen” em expressões como “ving tsun kuen”, “sistema ving tsun”, não são naturalmente usadas afixadas a abstrações como “kung fu”: o sistema é sistema de Ving Tsun, não é sistema de Kung Fu; o sistema é o Sistema da A⸫ A⸫, não um Sistema de Sabedoria. Dizer coisas como sistema de kung fu ou sistema de sabedoria é razoável apenas informalmente.

Quer seja isso um dado cultural histórico ou somente má impressão da minha parte, minha opinião expressa dessa maneira é de que aquilo que se sistematiza não é uma abstração, mas uma concretude. Por mais sublime seja o objetivo do indivíduo, a ação é vulgar; você persegue a sabedoria, mas o que você faz é lavar a louça.

Como o leitor já deve ter percebido, eu tenho nenhuma intenção de finalmente definir a ponte que existe entre lavar a louça e obter sabedoria: minha intenção é dizer que isso não se pode dizer, apesar de se poder fazer.

Existe um jogo duplo quando se pensa no objetivo de um tal sistema. Uma pessoa civilizada, ao entrar na escola de artes marciais em busca de kung fu, deseja melhorar-se como pessoa, então esse é o objetivo da pessoa, e certamente o sistema de arte marcial tem a virtude de o praticante desenvolver seu kung fu. Porém, quando você visita a escola de artes marciais, o que você você vê são pessoas mexendo as mãos e os pés para lá e para cá: combate corpo-a-corpo.

O sistema de Arte Marcial tem como objetivo imediato a produção do artista marcial; um bom sistema de Arte Marcial tem a virtude de produzir seres humanos de altíssimo nível como um efeito colateral. Após notar que um certo sistema tem esse feito colateral de forma consistente, sendo essas virtudes desejáveis, o sistema então será tomado como tendo esse objetivo, as pessoas buscarão o sistema pelo seu efeito colateral, jogando o jogo duplo.

Assim, na China, pessoas buscam cultivar o Kung Fu ingressando em escolas de caligrafia, onde exercitarão o Kung Fu pelo método de aperfeiçoar a caligrafia. O objetivo do sistema de caligrafia é certamente, antes de mais nada, e sobretudo, produzir um calígrafo com uma bela caligrafia, e um bom sistema de caligrafia terá como efeito colateral a produção de um ser humano de altíssimo nível.

Existe um ordenamento natural aqui: enquanto faz sentido dizer que um praticante do sistema alcançou a sabedoria em virtude da sua trajetória como praticante, faz pouco sentido tomar uma pessoa como sábia e então afirmar que esta pessoa é um mestre em todos os sistemas que se encontram por aí. Afinal, quaisquer sejam as suas outras qualidades e efeitos, a arte da caligrafia é sobre caligrafia, e a arte marcial é sobre marcialidade.

O Iluminismo Científico, pela falta de uma compreensão entre o fazer vulgar e as qualidades sublimes por um lado, e pela falta de um alicerce sólido para a compreensão do quê se trata a arte por outro lado, se dissolve na abstração da “espiritualidade” levando os envolvidos a caírem nas armadilhas típicas daquilo que existe somente em abstração, como o orgulho em falar e ouvir uns para os outros palavras profundas, maravilhosas e incríveis com as quais se concordam plenamente.

Esse caminho leva ao entendimento de que o praticante de mais alto nível é uma pessoa que elabora abstrações e produz discursos, e não precisa da muleta chamada técnica, cuja finalidade é apoiar os praticantes medíocres que não tem maiores realizações do que fazer fazeres. Mas as pessoas que “só sabem fazer” possivelmente são profundamente sábias, e como todas as pessoas sábias, não tem opinião para dar, especialmente quando a sabedoria é avaliada por palavras em texto morto, como “diários”.

Espiritualidade não se produz por dizer palavras, nem precisa de ajuda dessas palavras para se desenvolver; espiritualidade se desenvolve sozinha como efeito colateral do trabalho realizado nisso ou naquilo, no entalhe da madeira, na preparação dos alimentos ou nos movimentos corporais da dança, ao longo de anos, tempo suficiente para que as pontes e as conexões se façam por si mesmas dentro da pessoa. [2]

Palavras como “magia”, ou “pintura”, são casos do que se chama “arte” dentro da lógica conceitual que rege coisas como cursos universitários, bolsas de estudo e taxinomias do saber. O termo “sistema”, como nas expressões “sistema Ving Tsun” ou “sistema da A⸫ A⸫”, refere-se a uma ordenação particular dos fazeres que correspondem tal que gera-se um excelente praticante; o sistema de pintura Tal e Tal gerando então um excelente pintor.

Pode ser que um certo sistema de, digamos, escultura, tenha a virtude de produzir incidentalmente a Sabedoria, e pode ser que não. A maioria das escolas de arte marcial mundo a fora produz lutadores mas não produz kung fu. Além disso, o sistema, tomado como um objeto imaterial, pode ser adquirido completamente ou parcialmente por um indivíduo, e pode ser que essa pessoa tenha um domínio suficiente ou insuficiente dele, assim como em qualquer coisa existem as pessoas mais ou menos competentes.

Uma pessoa que adquiriu o sistema de forma insuficiente, não apenas irá exercer a arte com um brilho limitado, mas também transmitirá adiante uma imagem distorcida; um dos piores inimigos da civilização é o idiota motivado.

Eu acho, então, que os casos lamentáveis da Arte Marcial e do Iluminismo Científico são invertidos. Na Arte Marcial, o comum é que a pessoa aprenda como socar e chutar, forte, rápido etc. e não aprenda o que isso tem a ver com o melhoramento da Humanidade. No caso do Iluminismo Científico, é lugar comum que isto tenha tudo a ver com o melhoramento da Humanidade, mas que inexista uma compreensão do quê isso tem a ver com fazeres vulgares como sentar em uma cadeira e ficar lá sentado por uma hora respirando devagarinho.

O fato dessa relação é bem conhecido, todos o repetem caso sejam perguntados, tendo sido registrados em grandes clássicos da humanidade que a polidez exige o máximo respeito; mas a relação é um mistério.

Assim se produzem opiniões como “a prática é para fortalecer a força de vontade”; [3] assim, a razão de haverem técnicas no sistema do Iluminismo Científico é tomada como geradora de méritos por esforços.

Essa concepção induz o pensamento de que as técnicas são uma coisa tosca que só serve para as pessoas toscas, e que as pessoas superiores vão fazer aquilo que é preciso fazer de forma sublime e misteriosa, ou seja, independentemente ou paralelamente à realização técnica. O exemplo de pessoas que tiveram seu “grau” reconhecido pelo “conjunto da obra” somente reforça o fato de que os grandes exemplos alcançaram o mérito por vias completamente diferentes do feijão com arroz. Na A⸫ A⸫, nós temos o exemplo de uma pessoa titulada Mestre mesmo não tendo a mínima competência em técnicas de novato, segundo sua própria opinião, ou então uma pessoa titulada Mestre por razão de assim ter se declarado como tale então na sequência ter produzido palavras profundas e sublimes. [4]

Especialmente nestes tempos em que a autoidentificação é um valor em voga na sociedade profana, a ausência de uma forte, concreta concepção da Arte, e de como o Sistema a produz, tornará extremamente vulnerável a condição daqueles que tem o dever de salvaguardá-los para as futuras gerações, os protegendo de derreterem em ideias abstratas, tornados discursos e narrativas e então capturados por agentes de mercado buscando vender “experiência”.

Além disso, a ausência deste alicerce é, no mínimo, a ausência de um fator de checagem e um marco referencial capaz de manter em cheque a Húbris, pecado mortal do qual todo “espiritualista” está vulnerável, especialmente aquele cuja vivência se localiza em um mundo onde existe apenas ele, seus “instruídos” e desafetos que estão lá longe do outro lado da Internet. [5]

[1] Para mim, a pessoa que se sente dessa maneira está ao menos em condições ideais para decifrar esse mistério; a pessoa que anseia por brilhar sob o holofote da palavra Orientador provavelmente vai passar tanto tempo se deliciando com este prazer que sobrará pouco tempo para sofrer a angústia deste problema.

[2] Em inglês, “comprehend” significa tanto “compreender” quanto “incluir”; esse uso também existe em português, como na frase “este dicionário é bastante compreensivo”.

[3] A prática produz este efeito, mas parar por aqui é lamentável.

[4] Ao primeiro Mestre, o contato com a fonte da sublime verdade da Terceira Ordem não foi suficiente para evitar cair em golpes financeiros, e o segundo eventualmente perdeu o juízo.

[5] Certa vez, na ressaca pós orgia religiosa, estávamos conversando na varanda sobre artes marciais, estando eu representante da arte marcial chinesa e outra pessoa representante da arte da espada japonesa. Esse sujeito então estava animadamente ensinando aos demais um certo movimento “indefensável”, o que pareceu a mim e ao meu colega uma coisa muito estranha. Quando interpelado sobre “de onde” o sujeito havia tirado aquilo, ele respondeu que já tinha feito muito isso no Samurai Shodown. A cabeça, assim como o papel, aceita tudo.

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