Por duas décadas eu venho estudando os Livros Santos da A⸫ A⸫ como parte do meu trabalho espiritual e como parte do meu trabalho de tradução. Em particular como consequência de refletir sobre as responsabilidades do tradutor, venho me debruçando sobre o quê exatamente significa esta qualidade de ser um texto “santo”.
Mesmo não tendo sido criado religioso em nenhum sentido, sou um homem branco brasileiro, de algum modo descendente de um povo cuja religião tem essa característica, a de ser uma religião “de livro”, uma religião onde uma das peças centrais da vivência é um livro, o Livro, onde se pode encontrar a Palavra que diz a Verdade.
Quando A⸫ A⸫ foi (re)organizada no início do século 20, um conjunto de textos oficiais foi publicado para (re)fundar a sua estrutura e o seu sistema. Um sistema de classificação foi adotado para orientar a interpretação desses textos, cada classe indicando de forma abrangente o tipo de abordagem apropriada para cada texto. Entre essas classes, a classe A define-se como consistindo de:
(…) books of which may be changed not
so much as the style of a letter: that is, they represent the
utterance of an Adept entirely beyond the criticism of even
the Visible Head of the Organization”.
Esta é uma concepção básica, intuitiva, sobre o Livro, de um membro da religião do Livro: o texto é composto de uma tal maneira que a Verdade está ali representada de forma perfeita e portanto nada deve ser alterado nesta representação sob pena de perder-se a verdade. Sabemos que existem culturas que trataram desta maneira o registro oral das suas tradições, sendo responsabilidade de certos indivíduos memorizar palavra por palavra esta representação oral e passá-la adiante.
Qual é a diferença entre o Livro e um livro qualquer? É apropriado discutir com os livros, é apropriado debater as suas ideias, praticar com elas o jogo dialético, jogar com o livro um jogo dialógico, e possivelmente ultrapassar o livro, produzindo um novo livro que o fará obsoleto. Mas com o Livro, é inapropriado discutir; aquilo que o Livro diz não está para debate, não há diálogo com o Livro porque não há nada para o leitor dizer ao Livro; a Palavra está para ser recebida, e consequentemente, interpretada.
Para uma pessoa filosoficamente inclinada, especialmente na sua imaturidade, essa é uma posição ofensiva, e com certeza uma posição politicamente problemática dado o seu potencial de estabelecer o domínio sobre o pensamento. Me parece, apesar disso, que este não é apenas um relacionamento aceitável com um discurso, mas que este é um relacionamento corriqueiro, cotidiano: esta é a relação natural, apropriada para discursos de sabedoria.
Quando a mãe ou o pai transmitem sabedoria ao filho, este ato de transmissão não tem a mesma forma de proferir uma posição filosófica ou política. Ele não está posto para que seja debatido, discutido, confrontado dialeticamente. É absurdo para um pai ou uma mãe discutir com uma criança filosoficamente sobre “não coloque o dedo na tomada”. Esta é uma fórmula de sabedoria que está lá para ser recebida.
No Livro da História, na discussão sobre os “manuscritos secretos” sobre os quais a antiga ordem foi fundada, considerando a proposição de estes manuscritos terem sido produzidos por “mestres secretos”, o autor considera:
You will readily understand that the genuineness of the claim matters no whit, such literature being judged by itself, not by its reputed sources.
Eu sinto um refrescante sopro de ceticismo, com um leve toque de cinismo, nessa posição, diante de um “texto santo”: não estamos aqui para negar que com este texto não se discute, mas também não temos a obrigação de nos ocupar dele. Seu jogo, suas regras, mas quem decide jogar sou eu.
Assim também os filhos com os pais, especialmente com o passar do tempo; a sabedoria paterna ou materna está lá para ser recebida, mas obedecer é uma outra história. A parte mais difícil e mais crítica da recepção da Arte é escolher um bom Mestre para então prosseguir recebendo aquilo que ele tem para entregar, já que receber a entrega de um idiota é perda de tempo.
Essas reflexões estão embutidas na minha prática de tradução dos Livros Santos. Assim como o leitor deve, após decidir que o livro vale a pena, receber o que ele tem a dizer, o tradutor deve apenas passar o livro adiante, inalterado. Esta ideia, “inalterado”, deve ser compreendida na sua profundidade, porque na sua superfície será desesperadora: tradução é alteração. O tradutor não está lá nem para corrigir o Livro, nem para salvar o Livro, e muito menos ainda para ensinar ou explicar o Livro. O tradutor deve praticar a transmissão pura. A ideia de uma transmissão pura, para que seja sensata, depende de uma concepção aprofundada do que estas duas palavras significam, “transmissão” e “pura”. Tudo isso acrescido de uma boa dose de humildade para aceitação de que nada no mundo sublunar é perfeito, e todas as medidas são graduais, e toda evolução é progressiva.
Aquilo que me parece apropriado com relação ao Livro é apenas e tão somente educar as pessoas sobre aquilo que está fora do Livro: sobre a linguagem corrente na época da composição do livro, sobre a sociologia, a antropologia do povo de onde o livro emergiu, sobre a história dos objetos associados, sobre a geografia dos lugares pertinentes. As chaves interpretativas não são raciocínios, mas dados culturais.

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