Sistema de Movimento

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曲則全,枉則直,窪則盈,弊則新,少則得,多則惑。

Curvando, então fica inteiro; retorcendo, então fica direito; esvaziando, então fica pleno; desgastando, então fica novo; sendo pouco, então é obtido; sendo demais; então é perturbador.

“Dao De Jing”, trad. Mario Sproviero, editora Hedra, p. 83.

子曰:「古之學者為己,今之學者為人。」

O Mestre disse: “Aqueles que estudavam nos tempo antigos o faziam para benefício de si próprios. Aqueles que estudam nos tempos presentes o fazem para aparecer diante dos outros.”

“Os Analectos”, cap. 14, aforismo 25, trad. Giorgio Sinedino, editora Unesp.

詠舂傳正統,
華夏振雄風。

O autêntico Sistema transmitido,
a grandeza da Nação promovida.

“Ving Tsun Kuen Kuit”, provérbios 38 e 39.

(Rascunho recém encontrado, publicado incompleto, do trabalho “Sistemas de Movimento”, apresentado na terceira Conferência do Iluminismo Científico em março de 2022.)

No trabalho “A Ordem do Tempo“, estudamos como a concepção de scala naturæ, uma concepção profundamente arraigada no pensamento ocidental, induz nosso entendimento do arranjo de sujeitos humanos formar-se como estruturas hierárquicas verticais, e como esse entendimento conflita com a proposta de graduum montis abiegni implícita em todo projeto de iluminação.

A noção de Ordem inclui uma noção de coisas estarem onde devem estar, pessoas fazerem o que devem fazer. A sociedade está em ordem quando os cidadãos ocupam cada um a sua devida posição e exercem seus devidos direitos e deveres, e em desordem quando as posições se invertem ou quando deveres não são cumpridos. A tragédia do Rei Lear inicia quando decide não mais ocupar seu trono.

Essa noção participa na construção das ideias de «κόσμος» (“cosmos”) e «σύστημα» (“sistema”). Grosso modo, estes termos se referem a complexos formados de partes interrelacionadas por um ordenamento que lhe é próprio. A mera multiplicidade de coisas não constitui «cosmos» ou «sistema». Música distinguise-se de uma multiplicidade de sons por possuir o “cosmos” ou “sistema” musical; Poema distingue-se de uma multiplicidade de palavras por possuir o “cosmos” ou “sistema” poético; Sociedade distingue-se de uma multiplicidade de pessoas por possuir o “cosmos” ou “sistema” social.

A ideia de Sistema obteve uma forte conotação científica com a adoção desse termo pela comunidade científica. Encontramos as expressões “sistema da natureza” em Lineu e “sistema do mundo” em Galileu para expressar a “natureza” ou o “mundo” como um complexo ordenado por leis científicas. O pensamento filosófico produz “sistemas de filosofia” constituídos de declarações filosóficas articuladas entre si pelo ordenamento filosófico.

A concepção do Sistema do Mundo harmoniza com a concepção da Escala da Natureza, uma podendo ser compreendida nos termos da outra. Em particular, nos dois grandes “mundos” da concepção clássica, encontramos o ordenamento necessário para constituir um Sistema; no “grande mundo”, o eterno ciclo das esferas celestiais do primum mobile, cujas harmonias produzem a musica universalis; no “pequeno mundo”, o contínuo ciclo da geração e da corrupção das coisas, onde a posição de cada pessoa é determinada pelas circunstâncias do seu nascimento. O pensamento em paz com essas duas concepções comporta tanto o movimento eterno das esferas celestiais como o movimento eterno das coisas da vida para a morte quanto a eterna ocupação de cada coisa na seu devida posição dentro da hierarquia universal. No mundo sublunar, as coisas mudam sempre, mas as coisas sempre permanecem as mesmas.

Como exploramos anteriormente, a presença da concepção de uma scala naturæ nas profundezas do nosso arcabouço induz a compreensão do ordenamento da A∴ A∴ como um ordenamento hierárquico vertical de sujeitos, ou seja, como uma definição das devidas posições que cada sujeito deve ocupar em função da sua natureza. Um sujeito, tendo sua natureza calculada, será designado uma posição na hierarquia com base nessa natureza. A posição de cada sujeito determina-se fundamentalmente por um cálculo de naturezas.

Assim, uma pessoa, consultando o “One Star in Sight”, encontrará a fórmula, “(The Practicus) is expected to complete his intellectual training and in particular to study the Qabalah.” Com base nisso, concluirá que esta é a posição hierárquia apropriada para pessoas como Gershom Scholem, o célebre historiador do misticismo judaico, que notoriamente estudou a Qabalah.

Mas a Ordem desse Sistema não é apenas uma ordem de naturezas e posições em um diagrama. Os documentos fundamentais, e documentos secundários importantes, definem claramente qual é a sequência em que os Votos devem ser proferidos e as Tarefas devem ser cumpridas. Os Votos serão proferidos na sequência prevista, e, consequentemente, seu cumprimento será observado e reconhecido na sequência que corresponde. Mesmo que uma pessoa obtenha um mérito fora do tempo, e este mérito seja materialmente reconhecido, os Graus serão conferidos na ordem prevista. A existência de uma Exceção somente confirma a existência da Regra. A ordem do Sistema da A∴ A∴ é uma ordem temporal.

O entendimento fortemente atado à verticalidade tenderá a interpretar a ordem temporal como uma formalidade, como secundária ou irrelevante. Se, por um lado, existe o processo de carreira em que a pessoa começa como um estágiario e cresce promoção em promoção, por outro lado, existe o processo seletivo que contrata diretores diretamente. A partir do entendimento de quais competências correspondem à diretoria, entende-se que contratar um diretor diretamente faz perfeito sentido, sem a necessidade de começar estagiário e subir a partir dali.

Assim, quê importa se uma pessoa iniciou seu trabalho no grau básico e cumpriu as tarefas a partir do início? não é suficiente que, por um meio qualquer, ela alcance a obtenção da Natureza prevista, documentada como “completou seu treinamento intelectual em geral e da Qabalah em particular”? Estas são questões induzidas pela concepção de uma hierarquia de naturezas. Com base nesta concepção, seria razoável ao detentor de um doutorado em história do misticismo judaico solicitar ao Cancellārius da A∴ A∴ o “exame de nivelamento”, ou “revalidar seu diploma”, para adentrar a Ordem no grau de Practicus.

Assim, admitindo como irrelevante a circunstância envolvendo a obtenção da Natureza desejada, podemos concluir que importante é o “ser”, não o “como”.

Quando contratamos um estagiário, procuramos certas qualidades, e quando contratamos um diretor, procuramos outras; não faz diferença se o diretor possui ou não possui qualidades apropriadas para ser estágiario. Nesta estrutura, não existe a necessidade de a pessoa na posição superior possuir as qualidades apropriadas para a posição inferior. Diferentemente, na estrutura hierárquica da Santa Ordem, existe essa necessidade; as qualidades são cumulativas. Assim, assume-se que a pessoa ocupando a posição, digamos, 3, possua cumulativamente todas as qualidades pertinentes às posições 2, 1 e 0. Examinando então o célebre historiador Gershom Scholem, podemos calcular que, sim, ele possui evidentemente as qualidades da posição de Practicus, mas não, não temos evidência de que ele possua as qualidades da posição predecessora de Zelator, e assim o “revalida” de Gershom Scholem estaria rejeitado. Mas e o célebre estudioso e místico Aryeh Kaplan?

A persistência nesse pensamento persevera na desconsideração do tempo como relevante; tanto faz se “formação intelectual” veio depois de “plano astral”, e se essas coisas vieram antes “āsana e prāṇāyāma”, desde que todas elas sejam acumuladas. Não interessa o tempo dessas coisas, sendo relevante apenas o Ser dessas coisas. Assim, não existe objeção contra o “nivelamente” de pessoas mortas, cujas qualidades foram registradas pela história; pessoas falecidas antes da fundação da ordem são, mesmo assim, membros graduados.

Afinal, qual poderia ser a relevância da ordem em que as coisas acontecem? Que importância construir o muro da frente antes do muro de trás, ou vice versa, desde que todos os muros estejam construídos? Não é o caso que uma casa é constitui-se de muros, sendo o importante que haja muros ao final? Estas são algumas das questões induzidas pela concepção do Sistema da casa como uma acumulação de partes ou de naturezas.

Existe algo de estranho nisso, algo sendo perdido nessa lógica. Anteriormente nós perguntamos, ao selecionar a pessoa para ocupar o cargo de diretor, quê importa além dessa pessoa possuir a natureza necessária, que importa se ela foi um estagiário que cresceu na empresa? Existe uma pergunta dentro dessa pergunta. Vamos admitir que o cálculo de naturezas calculou que duas pessoas possuem a natureza necessária, uma delas alguém formado em algum outro lugar, e uma pessoa formada aqui desde o estágio. Estamos, então, comparando duas pessoas com as qualidades exigidas, com a diferença que uma delas trabalha aqui na empresa a muitos anos e a outra pessoa é um estranho. Existe diferença entre essas duas pessoas? É evidente que existe diferença. A questão se reduz então para se essa diferença é ou não é relevante. Afinal, sendo relevante para o processo seletivo, então o cálculo de naturezas no começo da conversa seria diferente, uma pessoa possivelmente estando mais apta do que a outra. A ausência desse item na descrição da vaga seria um erro básico do responsável pelo processo.

Seguindo essa intuição, observamos que, por exemplo, no Brasil, o título de “formação no ensino médio” pode ser obtido por qualquer pessoa aprovada em um processo de nivelamento conduzido pelo governo. Enquanto isso, existem escolas no Brasil que admitem novos alunos apenas para a primeira série do ensino médio, não admitindo nem na segunda nem na terceira, de modo que a “formação no ensino médio na Escola tal e tal” designa uma pessoa que completou a primeira, segunda e terceira séries nesta Escola. O certificado emitido por esta Escola inclui uma sutil informação de movimento, um movimento em três etapas concluído na ordem prevista. Esta pessoa não apenas possui esta condição universalmente reconhecida; ela possui a condição específica de ter sido formada completamente aqui, nesta Escola.

Quando nos perguntamos qual é a relevância da ordem em que os muros de uma casa são construídos, abstraindo a circunstância em privilégio da abstração, ignoramos fatores circunstanciais como a presença de um barranco deslizante atrás da casa, ou de uma ribanceira em alguma das laterais. Havendo um barranco deslizante traseiro, pode fazer toda diferença construir o muro traseiro antes dos demais, assim como um muro na lateral onde está a ribanceira, uma diferença que pode não ser percebida por uma pessoa do futuro vendo uma fotografia da casa após sua construção. A fotografia da casa não inclui o movimento de construção da casa parte a parte, com as interações que são viabilizadas ou inviabilizadas a cada etapa.

Quando o Sistema designa as suas partes em uma ordem temporal, ele induz na etapa seguinte aquilo que decorre do que foi realizado na etapa anterior. Esta circunstância, induzida pelo ordenamento, não demanda explicitação. Realizando as coisas na ordem certa, a ordem induzirá a circunstância, porque as realizações anteriores serão geradoras naturais das circunstâncias correspondentes, que portanto necessariamente estarão presentes no tempo certo.

Admitindo isso, admite-se então a existência de um elemento não dito na descrição das designações como Practicus e Philosophus, um elemento que não está dito porque não precisa ser dito já que ele se manifestará necessariamente. Este elemento será obscurecido por uma leitura do Sistema pelo viés da hierarquia de graus porque essa leitura tende a enfatizar o texto como um dispositivo proposicional, que declara a verdade dos seres, enquanto que uma leitura que enfatiza o texto como um dispositivo de movimento, que prescreve a ordem do tempo, o iluminará.

Não há necessidade de descrever nem o estado nem a situação em que se encontrará o Practicus ao empreender “completar sua formação intelectual”, nem o contexto desta empresa, nem suas relações com os outros elementos do sistema. O Practicus empreenderá esta nova coisa na sequência do empreendimento anterior, que por sua vez também aconteceu na sequência do empreendimento anterior, de modo que o estado e a situação em que ele se encontra aparecerão necessariamente para ele por virtude de tudo aquilo que foi realizado anteriormente. Assim, o Zelator prepara a condição do Practicus, assim como o Neófito prepara a condição do Zelator.

Anteriormente, fizemos contraste entre o que seria um dispositivo ou sistema proposicional e um dispositivo ou sistema de movimento. O que estou chamando de sistema proposicional é um sistema cujos componentes são proposições sobre a Verdade, arranjadas das mais absolutamente básicas e irredutíveis em uma sequência dedutiva em que das proposições iniciais deduz-se as proposições seguintes e assim por diante na construção de uma grande estrutura racional. A expressão “sistema filosófico” frequentemente designa uma coisa desse tipo. Tomar o Sistema da A∴ A∴ como um sistema proposicional é tomar sua descrição como sendo composta de proposições sobre a verdade daquilo que seus elementos, os graus e os membros, designam.

O que estou chamando de sistema de movimento é um sistema cujos elementos não são proposições sobre a verdade mas sim prescrições referentes a transição de um estado ou posição para o outro. Enquanto os sistemas proposicionais parecem característica típica do pensamento “ocidental”, os sistemas de movimento parecem caracteracterística típica do pensamento “oriental”.

(Rascunho encerra abruptamente aqui.)

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