A Qualificação do Instrutor da A⸫ A⸫ (ou o que eu aprendi moendo cana)

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Duas coisas peculiares aconteceram no mês passado: a convite do meu instrutor, fui conhecer um kindred Asatru chamado Sangue do Vale, que está estabelecido no interior do Rio de Janeiro, e, um dia antes, um texto provocador foi postado no site de uma editora de livros ocultistas falando sobre Ordens Iniciáticas. A viagem foi ótima; já o texto me causou desconforto. O ponto que de fato me incomodou foi a colocação sobre a santa ordem: “supondo que o superior seja uma pessoa menos competente do que seu subalterno, como essa pessoa mais competente vai conseguir evolução dentro da hierarquia da ordem? Para mim, este modelo está fadado ao fracasso. ”. Outras críticas foram tecidas mas acho que estas são tão frágeis e de resposta tão óbvia que seria perda de tempo adereça-las.

Mas a frase citada acima me incomodou, fiquei puto, xinguei muito no grupinho de Whatsapp e no chat de Facebook, até que, como de costume, meu instrutor deu a cutucada, “tá incomodado? Acha outra coisa? Então escreve ai um artigo. ”. E cá estou eu.

Voltando a minha viagem, já no dia de retornar, eu estava admirado com os hábitos do nosso anfitrião, que para curar a ressaca da celebração na noite anterior fez um chá de boldo, colhido diretamente do mato na frente da casa dele. O gosto é horrendo, mas como bom carioca que sou, me interessei pelos colmos de cana plantada ali e pela máquina de moer cana manual que ficava na varanda.

O interesse rapidamente se transformou no anfitrião ceifando um colmo com um facão e colocando na máquina para moer e extrair o suco. Me prontifiquei imediatamente para ajudar, ao menos segurando o jarro, e fiquei olhando o processo. No Rio quando se toma caldo de cana, normalmente ele é extraído de pedaços de cana esbranquiçados colocados numa grande máquina que parece uma geladeira e moi a cana automaticamente, com bastante barulho.

Já na metade da cana me ofereci para trocar de lugar. Girei a manivela de madeira ligada a uma roda de ferro, uma, duas, três vezes, não era tão duro quanto imaginava, mas também não era tão fácil. Até que nosso anfitrião deu uma dica “Use o peso do seu corpo”. O fiz e de fato o processo ficou mais fácil, mais uma, duas ou três giradas e começou a ficar pesado, ouvi outra dica “você precisa levantar a cana”. Também acatei e o processo se tornou mais fácil, exceto no finalzinho, onde, mesmo botando força e peso, estava difícil, então ouvi que “o final era assim mesmo”, e que não era mais necessário moer pois já tínhamos suco/caldo suficiente.

Só na viagem de volta que eu pude perceber o quanto essa experiência era justamente a analogia que eu buscava na minha réplica a provocação de que o modelo da A⸫ A⸫ está fadado ao fracasso.

Moendo a cana, eu passei por um processo de aprendizado, que envolveu a minha concepção do que era operar aquela máquina, o que eu aprendi vendo e deduzi, o que eu aprendi fazendo e em especial as dicas que recebi. Se eu quisesse muito, eu certamente teria conseguido fazer tudo sozinho. Talvez terminasse exausto, quem sabe com metade do caldo produzido, mas certamente teria conseguido.

Existe um fantasma que paira sobre o meio ocultista que é a ilusão do mérito pelo esforço, que para ser verdadeiro merecedor ou acessar a verdade verdadeira é preciso se esforçar até não ter mais forças, mas se tem uma lição que eu aprendi em minha probação, foi a de ir aos poucos refinando para a força ser aplicada no lugar certo; ainda é preciso fazer força, mas se vamos martelar uma porta para abri-la, martelemos na maçaneta ou na dobradiça.

As instruções que recebi do meu Anfitrião, facilitaram o processo, mais do que isso, me mostraram o essencial para aquilo, onde fazer força para gerar o movimento e sair da inércia, onde um ajuste faria com que eu não precisasse aplicar mais força e por fim, uma certa média do que é suficiente e razoável se esperar daquele processo e do seu resultado.

Toda essa historinha, não difere muito das concepções que tenho hoje do período de Probação da Astrum Argentum.

A angústia de ter “o melhor instrutor de todos” ou alguém que seja “superior” a você pode vir de diversos locais, mas eu elencaria por um lado a pressão social que sofremos para sempre escolher o melhor por que supostamente isso estaria diretamente ligado ao quão bom aluno você será e o resultado final, como é o caso quando se escolhe uma universidade para se inscrever, e por outro lado a baixa autoestima. Acredito que a primeira seja autoexplicativa, mas a segunda me remete justamente a diversas relações que criamos na nossa vida onde esperamos que a outra parte nos “puxe pra cima” com sua melhoridade.

Sei que isso está extremamente distante da realidade ao menos do meu processo de probação. Apesar de ser muito grato ao meu instrutor por conta do método que ele conduz este meu período, sei que o mérito do avanço foi meu, e mesmo que ele fosse um instrutor ruim, a minha perseverança, bem como outros fatores externos, ainda teriam me levado ao local que estou hoje.

Até onde me consta, na A⸫ A⸫ não existem grandes mistérios a serem transmitidos ou ensinados, não somos dependentes de uma pessoa com boa didática ou carisma, só precisamos de uma pessoa que já tenha passado pelo mesmo processo, que reconheça os pontos focais de dificuldade e possa dar aquele toque para que não se faça um esforço desnecessário, para que o que foi depositado seja o melhor aproveitado possível.

Portanto, exceto por uma questão de vaidade, pouco importa quem o seu instrutor é na fila do pão. Se ele é seu instrutor, é por que alguém reconheceu que ele atravessou determinado período e adquiriu uma determinada experiência definida e reproduzível e existe alguém de grau acima do dele, o instruindo. Tendo preenchido estes requisitos, ele já passa a ser um ótimo instrutor para você que não passou por isso ainda, e ele já possui uma capacidade de te ajudar que você, sozinho, por mais genial que seja, não tem esse conhecimento.

Me pergunto se para ser treinador do Usain Bolt, é preciso correr mais do que ele, ou se possuir uma sabedoria acerca da aplicação de conceitos em prol de um resultado mais eficiente já é benéfico para o homem mais rápido do mundo.

Referências

Frater Optimus Prime, “Frater Optimus e as Ordens Iniciáticas”, 20 de Outubro de 2017, [link]

Uma resposta para “A Qualificação do Instrutor da A⸫ A⸫ (ou o que eu aprendi moendo cana)”.

  1. Avatar de Frater Óptimus: Tréplica a Frater A. - Penumbra Livros

    […] pode ler o post original aqui, e a réplica aqui. Para ler a tréplica, basta continuar a leitura a partir desse […]

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