Tradução: «to bid»

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Neste série, publicarei comentários sobre minha atividade de tradução, que se ocupa principalmente dos Livros Santos da A⸫ A⸫ e de material relacionado, bem como aparatos e ferramentas que desenvolvi para apoiar esta atividade, e talvez até quem sabe traduções propriamente ditas.

Em Liber Hamus Hermetics ocorre um uso de «bid» que me ocupa a muito tempo e finalmente decidi resolver. São dois problemas: transpor «bid» e decidir quem «not» modifica.

I bid you not turn from your voluptuous ways, from your idleness, from your follies.

Liber Hamus Hermeticus, verso 7

Este uso de «not», que ocorre frequentemente no corpus, parecerá incomum para o brasileiro com formação básica no inglês contemporâneo de 2021, cuja negação ocorre cliticizada em auxiliares como «don’t», «can’t», «won’t» etc. Além disso, com a singularização do termo «not» como chave interpretativa de Liber Legis pela excelente análise de Charles Stansfeld Jones, o leitor pode se sentir tentado a interpretar todas as suas ocorrências como um criptograma esotérico. É importante manter em mente que a negativa com «not» (como em “I bid you not”) é natural ao inglês histórico e precede a negativa com «don’t» (como em “I don’t bid you”). O poeta educado no final do século XIX não veria problema algum em escrever ou mesmo falar assim para obter um tom de antiguidade, um tom clássico. Em particular, esta é a construção da negativa que ocorre na bíblia King James, como, por exemplo, Gênesis 4:9: “And the LORD said unto Cain, Where is Abel thy brother? And he said, I know not: Am I my brother’s keeper?”, .

Agora, este «not», quem ele modifica?

  • I bid you not — turn from — your shit
  • I bid you — not turn from — your shit

O impacto no significado é sutil. Trata-se de o eu-lírico estar ou não estar bidding, ou seja, de o eu-lírico estar afirmando a presença ou a ausência de bidding. A diferença entre a presença-de-não e a ausência-de-sim é importante: bid-que-não implica a presença de um bid, enquanto não-bid-que implica a ausência de um bid.

Felizmente, esta construção da negativa com «not» é estritamente pós-verbal. Justamente, o «not» pós-verbal eventualmente substituiu o «ne» pré-verbal. Caso o eu-lírico intencionasse o moderno “don’t turn from”, o clássico equivalente seria “turn not from”, ou seja, “I bid you turn not from…”. De fato, encontramos na King James exemplos como Josué 1:7, ênfase com sublinhado minha: “Only be thou strong and very courageous, that thou mayest observe to do according to all the law, which Moses my servant commanded thee: turn not from it to the right hand or to the left, that thou mayest prosper whithersoever thou goest.”

Trata-se, então, certamente, deste «not» modificar «bid» e não «turn». Resta agora transpor «bid» para o português.

O Oxford Dictionary of English dá três grandes grupos de acepções para o verbo «bid». Primeiro, como oferecer ou presentar. Neste grupo está o uso de “bid” para oferecer um preço por alguma coisa, como em um leilão, ou fazer uma aposta: “make a bid for some item”. Segundo, como urgir, rogar, pedir com pressa, com urgência. Neste grupo estão usos de “bid sinônimo de “beg”, como ao convidar uma pessoa para fazer alguma coisa: “I bid you come to our wedding”. Neste grupo também estão expressões como “bid you welcome” e “bid you farewell”. Terceiro, como comandar, ordenar, intimar, ou de um modo geral falar algo com força de autoridade. Neste grupo estão usos de “bid” com sinônimo em expressões com “tell”, como no caso de uma mãe dizendo ao filho para escovar os dentes: “I told him to brush his teeth”.

A seleção entre os três grupos não parece problemática, o contexto permite selecionar com facilidade o grupo três: o objeto “turn from” não faz sentido pelo interpretante dos grupos um e dois. O de «bid» para expressar a fala com força de autoridade ocorre aproximadamente 50 vezes na bíblia King James, como em Josué 1:7 citado acima: o Senhor está frequentemente “bidding” as pessoas fazer ou não fazer coisas. Nos resta transporte esta acepção para o português.

Neste trabalho, temos como objetivo primário transpor termos diferentes por termos diferentes, sempre que possível, com o objetivo de respeitar o original justamente desta decisão. O caso de «bid» parece fácil porque não ocorrem nem «command» nem «order» equivalentes: poderíamos escolher um desses. Apesar disso, eu sinto pessoalmente que merece mais atenção. Meu incômodo é simplesmente que o eu-lírico não escolheu «command» ou «order» para se expressar. Usar em português «comandar» para traduzir uma fala que não foi construída com «command» não me satisfaz. Por acaso existe uma particularidade importante em «bid» que merece ser preservada?

Fiz uma pesquisa na bíblia King James por todas as ocorrências do verbo «bid», inclusive «bade» e «bidden», que somam aproximadamente 50 entre ambos os testamentos. No velho testamento, «bid» ocorre predominantemente para transpor «אָמַר», Strong 559. Este termo é frequente no velho testamento, ocorrendo, de acordo com a Blue Letter Bible, 5318 vezes. Este verbo tem como significado básico dizer, falar. Seu uso como comandar, ordenar parece ou especificamente bíblico ou obsoleto; não tenho competência suficiente para saber. Já seu cognato arábico «أَمَرَ» aparece em dicionários comuns justamente com a acepção comandar, ordenar, ou encarregar. Em diversos versos do velho testamento, o dizer representado por «אָמַר» tem força executiva, o peso da palavra do Senhor, como é o caso de Gênesis 1:3 quando o Senhor “diz: Faça-se a luz”. O conteúdo deste dizer tem força executiva; o que foi dito deve acontecer; não é uma sugestão.

Me parece que esta sutileza merece ser preservada: existe um dizer e seu conteúdo é um fazer, existe uma força executiva que advém da autoridade de quem está dizendo, mas não existe uma explicitude na amarração, no “binding”. Nós “dizemos” para nossos filhos escovarem os dentes, para os nossos alunos fazerem a lição e para os nossos subordinados fazerem isto e aquilo. Essas coisas devem acontecer mas nós não construímos nossa expressão explicitamente com termos como “comandar” ou “ordenar”. Existe sentido nesta diferença e reconhecer será suficiente para o tradutor: sua missão é preservar as especificidades para proteger a condição da interpretação.

Portanto, procuramos em português por verbos que expressam “dizer para fazer”. No Houaiss, trata-se de «dizer» acepção 5: ordenar, mandar. Não; na verdade, estamos procurando expressar “não dizer para fazer”. Existem pessoas dizendo para você voltar-se, dar às costas a, se afastar disso e daquilo. O eu-lírico não diz isso: esta é a importância de fazer a distinção entre dizer-para-não-fazer e não-dizer-para-fazer. A presença da obrigação de não fazer é totalmente diferente da ausência da obrigação de fazer. Trata-se de não obrigar, não comandar, não ordenar, não exigir, não mandar, não demandar, não requerer, não encarregar. Nossa Senhora, que difícil.

2 respostas para “Tradução: «to bid»”.

  1. […] Para uma discussão sobre o verbo «bid», veja este artigo. […]

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  2. […] Para uma discussão sobre o verbo «bid», veja este artigo. […]

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