Contexto: «sacred vessel»

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Os textos da série “Contexto” refletem os frequentes estudos de contexto que se mostram necessários na minha pesquisa. Estes textos não representam teses interpretativas: eles são o resultado de uma busca por interpretantes.

This is the secret of the Holy Graal, that is the sacred vessel of our Lady the Scarlet Woman, Babalon the Mother of Abominations, the bride of Chaos, that rideth upon our Lord the Beast.

Liber Vallum Abiegni, verso 1.

O termo «vessel» descende, através do francês antigo, do latim «vascellum», um pequeno vaso ou urna, diminutivo de «vasculum», um pequeno vaso ou recipiente, por sua vez diminutivo de «vās», um vaso, prato, recipiente ou outro utensílio ou implemento doméstico. No “Orator” encontramos um caso simples onde «vas argenteis» significa um “vaso de prata”.

sine vocalibus saepe brevitatis causa contrahebant, ut ita dicerent: multi modis, in vas argenteis, palmi crinibus, tecti fractis.

Marcus Tullius Cicero, “Orator”, p. 153, in Soraia Nascimento Gonçalves, “Estudo e Tradução do ‘Orator’ de Cicero”, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2017 [link]

No sentido de um recipiente, diferentes usos são atestados para «vas». Na Lei Sálica encontramos um caso em que significa um “sepulcro”, um túmulo feito de pedra.

Si quis mortuum hominem aut in noffo ou petra, quæ uasa ex usu sarcophagi dicuntur, super alium miserit, MMD din qui fac. sol LXII cum dimidio culp. iud.

Lex Salica, lex emendata, titulum 17, para. 3 [link]

O uso de «vas» e suas variantes para significar um recipiente para líquidos teve uma descendência frutífera. Hoje, o inglês «blood vessel» assim como o português «vaso sanguíneo», «sistema vascular» e «vesícula», representam órgãos capazes de armazenar ou conduzir líquidos no corpo humano.

Apesar disso, o significado de «vas» não se resumia a recipientes para líquidas mas abarcava a ideia completa dos utensílios domésticos, inclusive aqueles que hoje nós chamamos de «plates» ou «pratos». A existência dessa fronteira, que hoje distingue os usos de «plate» e «prato» de «cup» ou «copo», se revela em expressões como «drinking vessel», que resguardam a diferença entre este tipo e outros tipos de «vessel», como um «bowl».

Um termo particularmente significativo para este Contexto que se posiciona igualmente nesta fronteira entre utensílios domésticos é o termo «graal», descendente, através do francês antigo, do latim «gradalis», um copo ou um prato. Este termo, originalmente apenas um termo incomum para um utensílio para servir alimentos, teve o seu sentido totalmente dominado pelo tesouro central das narrativas “arturianas”.

Em sua primeira aparição, no “Perceval” de Crétien de Troyes, o «graal» aparece para o protagonista como um de vários objetos maravilhosos apresentados pelos serviçais do castelo do Rei Pescador durante um jantar. Este «graal» é um prato de ouro, ornado com pedras preciosas, usado de forma misteriosa durante o serviço, que o protagonista posteriormente descobre portar uma hóstia com propriedades miraculosas.

.I. graal entre ses .ii. mains
Une damoisele tenoit,
Qui avec les valles venoit,
Bele et gente et bien acesmee.
Quant ele fu laiens entree
Atot le graal qu’ele tint,
Une si grans clartez i vint
Qu’ausi perdirent les chandoiles
Lor clarte comme les estoiles
Quant li solaus lieve ou la lune.

Chrétien de Troyes, Keith Busby (ed.), “Le Roman de Perceval”, vv. 3220-3229.

Este «grail» torna-se o «holy grail» como o conhecemos no “Joseph d’Arimathie” de Robert de Boron, onde é a taça usada pelo Cristo na última ceia, usada por José de Arimatéria para coletar o sangue vertido por seu corpo ao ser retirado da cruz.

A expressão «sacris vasis» dá o título da terceira seção do capítulo seis do «missale romanum» da Igreja Católica Apostólica Romana. O plural «sacris vasa» neste contexto significa o conjunto de utensílios utilizados na missa, sendo os mais honrados entre eles o «calix» e a «patena».

Inter ea quæ ad Missam celebrandam requiruntur, speciali honore habentur vasa sacra, et inter hæc calix et patena, in quibus vinum et panis offeruntur, consecrantur et sumuntur. Vasa sacra ex metallo nobili conficiantur. Si ex metallo conflata sint quod robiginem producat vel auro minus nobilis sit, interius plerumque inaurentur.

MIssale Romanum, editio typica tertia, para. 327-328 [link]

Nas traduções do «missale romanum», a expressão «sacris vasa» se traduz para o inglês «sacred vessels» e para o português «vasos sagrados».

Compare:

Come! let us irritate the vessels of the earth: they shall distil strange wine.

Liber Liberi, cap. 3, v. 24

I have found that which could not be found; I have found a vessel of quicksilver.

Liber Cordis Cincti Serpente, cap. 1, v. 29.

Then let him not fall exhausted, although the might have been ten thousandfold the human; but that which floodeth him is the infinite mercy of the Genitor-Genetrix of the Universe, whereof he is the Vessel.

Liber Capricorni Pneumatici, v. 14.

Uma resposta para “Contexto: «sacred vessel»”.

  1. […] Para uma discussão sobre «sacred vessel», veja este artigo. […]

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